Que estar e ser são estes, em que temos estado e sido por aqui?

De repente, uma sociedade (e uma escola) que teimam em não poder mudar o que quer que seja porque estamos todos num grande enleio de compromissos, são forçados a mudar.

E o mais interessante, parece-me, é que afinal descobrimos aqui neste tempo de pausa que há mesmo muitas coisas que não são assim tão importantes. Que esta pressa toda para chegarmos não sei onde, serve de pouco quando se trata de nos mantermos vivos.

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Os tempos de crise contêm em si o caos, o súbito, a desorganização, o medo, a incerteza. Mas também a possibilidade. Para a mudança, aquela para a qual nunca temos tempo, ou nunca estamos no tempo certo. Reconsiderar, imaginar, projetarmo-nos na vida como antes não fomos capazes.

Este tempo COVID-19, em pleno 2020, é um desses momentos trágico-transformadores. Em potência. Uma crise sanitária que nos permite observar, globalmente, que estar e ser são estes em que temos estado e sido por aqui.

O assunto é complexo. Um caldeirão pesado onde temos vindo a preparar uma sopa explosiva. E hoje queria pensar sobre o que desta sopa pode, ainda assim, ser nutritivo.

Queria pensar sobre as possibilidades, sobre esta situação das famílias estarem todas, em teoria, em ensino doméstico. Porque na prática, não estão. A opção pela educação em casa, homeschooling, ensino doméstico, não foi uma opção. E por não ter sido uma decisão, consciente, intencional saltaram-se uma série de etapas. E é por isso, por se tratar afinal de uma escapatória, um bunker, um alçapão apertado e cheio de pó, que é confuso que neste cenário, prevaleça uma preocupação com as crianças e os jovens que é, não sobre o seu bem-estar, enquanto pessoas inteiras que vivem esta situação por inteiro, mas com as actividades escolares.

O que me deixa em modo reflexivo, é a forma como, por um lado, compreendemos a urgência de acautelar o colapso do sistema de saúde, e a morte de muitas pessoas e, por outro, no que toca às crianças, o mais importante é que façam os trabalhos da escola e mais os trabalhos de casa e que não se atrasem (para quê, exactamente?)

Ora, os miúdos, imagino, porque tenho alguns aqui por casa, também estão preocupados. E têm muitas dúvidas. E estão em clausura. E se é verdade que muitos só gostam da escola por causa dos colegas e dos mini-intervalos, é também verdade que muitos não estão habituados a estar tanto tempo em casa, tanto tempo com os pais, em casa, e ainda por cima, a ter de fazer e cumprir tarefas que não eram da casa (com exceção dos TPC).

O mais importante, diria, assim sem ser muito radical, é que os miúdos estejam bem, a  são e salvo. E isso quer dizer que o lugar da casa, de onde estão habituados a sair cedo e voltar tarde, deve ser primeiro a casa. Um lugar onde se sentem protegidos, seguros. Se isso acontecer, quase de certeza, as coisas da aprendizagem, da curiosidade, da motivação, da responsabilidade e do compromisso, acabam por surgir. Mas não acontecem assim só porque a nós, que já temos (algumas) ferramentas para melhor nos adaptarmos aos imprevistos, nos dava imenso jeito. Isso é só nas mini-séries. E isto não é um Black Mirror, embora às vezes pareça mesmo.

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Estamos todos um bocadinho perdidos, não é? E se em vez desta obsessão com a escolarização, nos déssemos ao luxo de estar com as crianças? Ouvi-las. Olhar para elas. Dar-lhes tempo para olharem para nós também. Brincar com elas! Imagino a alegria de poder, por exemplo, ir à casa de banho quando se tem vontade, e estar em casa, na sua própria sanita!

De repente, uma sociedade (e uma escola) que teimam em não poder mudar o que quer que seja porque estamos todos num grande enleio de compromissos, são forçados a mudar.

E o mais interessante, parece-me, é que afinal descobrimos aqui neste tempo de pausa que há mesmo muitas coisas que não são assim tão importantes. Que esta pressa toda para chegarmos não sei onde, serve de pouco quando se trata de nos mantermos vivos.

Há certamente muito para escrever, para dizer. Muito para pensar. Isto tudo é uma janela de oportunidades, mas uma janela de onde chega um frio imenso, de fazer as bochechas vermelhas e ásperas.

Mudar é uma coisa extraordinariamente difícil. Deixar para trás uma ideia que tem servido de base à nossa estrutura há muitos anos, é difícil. Mesmo que o movimento em que temos andado tenha sido maioritariamente penoso.

Por exemplo, no caso da escola, há mesmo muitas famílias, professores, crianças e jovens que não são felizes com o estado das coisas. Na balança, no geral, pesa sobretudo o lado negativo. Apesar disso, temos dificuladade em sair dessa engrenagem. Porque sair do que quer que seja implica, pelo menos um bocadinho, que se consiga olhar noutra direcção. E isso só se consegue quando o pó do nosso caminho assenta. Só se consegue com tempo. E é disso que se trata. Este regresso a casa. A deixar ver outro lá fora. Este regresso a casa. A deixar ver outro cá dentro.

E o dentro pode (e é) às vezes tão perigoso como o lá fora… Outro assunto, muito importante, e de que pouco se fala, também, assoberbados que estamos com o pânico de deixar cair os artifícios por onde temos caminhado.

A família não é, às vezes, um lugar seguro para ninguém. Muito menos para uma criança. Há muitas crianças que estão em risco. Muitas que estão em situação de risco aumentado. E neste lugar, fechado, sem ter para onde ou com quem estar, é a criança quem está mais vulnerável.

Mas, é também verdade, que muitas famílias podem ser esse lugar privilegiado de segurança, de afeto, de contenção. O lugar onde nos sentimos (sobretudo a criança) amados, respeitados, capazes de tudo. O lugar onde, por nos sentirmos bem, mais gostamos de estar, mais gostamos de aprender. De correr riscos, por sabermos que há sempre essa(s) figuras tão importantes, esses espelhos, que nos orientam, mesmo sem estarmos sempre frente-a-frente. Para uma criança, a casa, a família, é o seu lugar de desenvolvimento por excelência. E é a partir dela, e com ela, que se abrem as outras experiências, os outros mundos, as outras relações. Num processo que deveria ser harmonioso, complementar, articulado. Com a escola, por exemplo. Com uma (outra) ideia de escola. Que para a maioria das pessoas, para a maioria das crianças, não é esta escola, há muito tempo.

E então o que fazemos nós? Que aqui chegamos voluntariamente, as crianças que não frequentam presencialmente esta escola por onde todos passamos. Como é que nos organizamos? Como é que não enlouquecemos? E os miúdos? Como é que não se aborrecem? Como é que aprendem? Como é que brincam com outras crianças? Como é que estão com outros adultos?

As respostas para estas questões são de natureza singular. Aplicam-se apenas a esta família. Que cada família é uma impressão digital e ainda por cima, sempre em movimento, um organismo vivo, dinâmico. Um micro-cosmos do resto.

  1. E então o que fazemos nós? Para nós, é normal. Mas não é normal não sairmos quase todos os dias de casa. Nem é normal não termos amigos em casa, nem não irmos a casa dos amigos. O resto, trabalhar a partir de casa, é normal. Foi sempre assim. Quer para os adultos, quer para as crianças. A casa é um co-work-co-play-co-learn-co-living. Por isso, não fazemos nada de extraordinário. A grande diferença é que já estamos habituados a estar uns com os outros durante muito mais tempo. Estamos habituados a co-habitar a casa. E a casa, em todo o lado, apresenta evidências disso. E isso não acontece de um dia para o outro. Vai crescendo com o tempo.
  2. Como é que nos organizamos? A organização vai acontecendo. Há ritmos naturais que marcam a cadência. À medida que as crianças crescem vão participando progressivamente na gestão das tarefas da casa, da vida. Mesmo agora pendurámos na parede uma lista de tarefas diárias, para cada um dos mais velhos. A mais pequena, com três anos acabados de estrear, desajuda no que pode, como é a sua função, naturalmente. Mas nesse processo, vai sabendo como se faz, e este estar aqui e crescer sobretudo a partir daqui é a sua normalidade. E todos os anos são diferentes, porque as nossas necessidades (e aqui estão incluídos a família e a rede social com quem nos articulamos pelas mais diversas razões), vão-se alterando. Por exemplo, antes da quarentena, o trabalho dos miúdos estava sobretudo concentrado nos primeiros três dias da semana. Agora, sem o apoio dessa rede, resulta para todos trabalhar durantes as manhãs, todas, ou a maioria. Mas há flexibilidade e ajustamo-nos com facilidade se forem necessárias mudanças de planos. Antes, existiam dias e horas específicas para actividades (e.g., música, desporto), agora algumas actividades continuam através dos meios digitais, outras ficaram suspensas. Mas re-inventamos. Criamos outros momentos, outras actividades, outras possibilidades para exercitar o corpo.7A04D748-AFCD-447C-968F-D40170480A8D
  3. Como é que não enlouquecemos? Às vezes enlouquecemos um pouco. Mas isso acontece a todas as pessoas. O importante é que o estado de loucura não seja permanente. Nesse caso devemos pedir ajuda. Dada a experiência que temos em estar mais tempo uns com os outros, é provável que a condição de estarmos uns com os outros não seja em si o que gera momentos de maior tensão. Mas todas as vidas têm momentos atribulados. E nós não estamos sempre felizes a beber smothies verdes e a pintar com tintas ecológicas e comestíveis. Nem andamos a dançar pela casa, esvoaçantes, loiros e imaculados de perfeição com roupas brancas. Não. (Relembrar que isto é o que acontece nesta família, que não é exemplo para ninguém, nem prescrição para quem quer que seja). Expressamos as emoções. As boas e as más. E temos mais dificuldade em expressar as más de forma assertiva. Mas estamos conscientes disso. E pedimos desculpa quando é preciso. Cometemos erros. Gritamos. Ameaçamos que certos e determinados objectos deixados em lugares incertos podem nunca mais ser vistos. E desejamos que chegue o verão e que a porta da casa de banho recupere a sua magreza de madeira seca para poder fechá-la bem e conseguir tomar banho sem espectadores humanos e felinos.
  4. E os miúdos? Os miúdos estão bem, obrigada! São miúdos. Estão a crescer como courgettes (i.e., rapidamente). Não estão fechados em casa. Quer dizer, agora estão. Mas isso não é o normal. O normal é sair, sair muito. Participar da oferta cultural, educativa, que tantos museus e outros lugares têm coisas tão boas e tão baratas (às vezes até gratuitas). Os miúdos estão bem. Vão participando o mais possível na realidade. São tratados como pessoas completas. Não estamos de acordo muitas vezes, mas isso é tido em consideração. E outras tantas vezes, pedimos-lhes um voto de confiança. Porque temos mais experiência e somos responsáveis por eles. Nós é que somos os pais. Não é uma relação de pares. Não é de igual-para-igual. Há conflito. Porque há relação. Um e outro estão sempre inter-ligados, alimentando-se. Outras vezes são eles que nos pedem esse voto de confiança. E nós damos. Se acharmos bem. E outras vezes não achamos, mas achamos que devemos dar na mesma. Porque também nós estamos sempre em processo de aprendizagem. Sempre.
  5. Não se aborrecem? Às vezes aborrecem-se. Não há volta a dar. Aborrecer-se é uma coisa que devia ser cuidada. Andamos todos tão ocupados com tantas coisas (ou andávamos) que já ninguém se aborrece por nada. O tempo todo preenchido com coisas, com imagens, com mensagens, com likes disto e daquilo que aborrecimento, nada. Não há lugar para tédio. Ou não havia. Aqui assumimos que isso é geralmente propulsor de boas ideias. Aqui controlamos o acesso e o tempo de utilização dos ecrãs. Temos outras propostas. E temos também tempos em que não há propostas nenhumas, e é nesse tempo que geralmente eles mais inventam. Que mais brincam todos juntos, apesar das diferenças de idades, de interesses, de habilidades. Aborrecer-se é uma coisa que deve ser cuidada. Não faz mal nenhum. Não temos sempre de estar a fazer coisas. Quem é que consegue – mesmo – por exemplo, não pensar em nada? Não fazer – mesmo – nada? Então mais vale praticar, certo?FBC6287A-7D14-415F-8401-16894BC1E827
  6. E como é que aprendem? Das mais diversas formas. Como qualquer pessoa com um desenvolvimento típico. Tentativa e erro, repetição, pesquisa, construção, hipóteses, experimentação, discussão, teimosia, indução e dedução, tutoria, mentoria, pedagogia. Mas o que é que me parece que é importante trazer também aqui, para deixar numa espécie de teaser, é contar que aprendem sobretudo utilizando a sua própria sabedoria. Mesmo que não seja meta-sabedoria. Aqui, somos crentes na educação auto-regulada. O nosso papel é facilitar, ouvir, responder, dar um empurrãozinho no caso de bloqueio. O nosso lugar é nos bastidores, lá à frente, estão eles. O que também fazemos, é aproveitar as deixas. Estamos atentos. Ao que pedem, ao que faz brilhar o olho. E vamos por aí. E por aí, tantas vezes, é um caminho que nos leva a tantos outros que é mesmo dispensável a utilização de um projecto de fora, com tanto que o dentro tem para explorar.
  7. Como é que brincam com outras crianças? Depende da criança. As brincadeiras são muito diversificadas. E dependem dos contextos e dos parceiros de brincadeira. E da brincadeira em si. Se são amigos, brincam de uma forma. Se não são, brincam de outra, mais superficial, talvez com menos contacto físico. Não combinam coisas para depois. Perguntam os nomes. Não se tratam por “meninos” e “meninas”. Se for no trampolim, inclui de certeza saltos e nudez progressiva. Se for jogos de tabuleiro, há sempre um que quer ganhar mais que os outros, e outro que cede sempre mais que os outros. Se for em casa é de uma maneira, se for na casa de amigos, é de outra. Se for uma brincadeira de espiões, quase não os oiço, se for de monstros, tenho de sair de casa para não os ouvir. Se for de exploradores, quase não os vejo, estarão acampados numa tenda, na sala, se estiver a chover, ou na horta, se não estiver. Se for de lutas dentro de casa, sou eu que saio, para não ver. Brincam em modo irmãos, e brincam com amigos, de idades diversas, de experiências sociais, escolares, culturais, gastronómicas, etc. diversas. Brincam com adultos também. Cada vez mais. Aqui gostamos todos de jogos de tabuleiro. E os mais velhos já conseguem jogar bastantes jogos connosco. Assim, brincam. Brincam muito. Brincam até não quererem brincar mais. E isso, nos dias de hoje, faz-nos sentir imensamente afortunados. Imensamente agradecidos também. A nós, por termos conseguido fazer uma escolha que é tão estranha ainda. Embora seja de facto a escolha tradicional. A escola, tal como existe (ou existia) é uma modernice. E, na minha opinião, já teve muito melhores dias… Cresceu na mesma lógica da economia, do capitalismo (aliás, não foi também isso que esteva na sua base?). Anyway. As crianças sabem todas brincar. Tenham o espaço e o tempo para poder brincar. Tenham a segurança de saber que essa a sua missão principal e que é assim, sobretudo assim, que aprendem.049C6B5C-1D1B-48B5-8905-615E83B9BDCC
  8. Como é que estão com outros adultos? Há familiares, pais de outras crianças que fazem parte do nosso dia-a-dia. Professores que trabalham pontualmente com eles. Artistas que trabalham pontualmente com eles. Há as pessoas do café. Do supermercado. Não faltam adultos. Há aliás bastantes. O rácio adulto-criança aqui é mais baixo. E estão bem. Não sei se é impressão minha, mas o que noto é que a comunicação com os adultos é mais horizontal. Ou seja, há olhos-nos-olhos. Há saber que pode e deve dizer o que que quer e o que não quer e que isso é levado a sério. E há também, e isto pode ser impressão minha, muitos adultos que não sabem falar com as pessoas que são crianças. Que assumem que as crianças só existem para falar da escola, se se portaram bem e o que querem fazer quando forem grandes. E quando têm alguma coisa a dizer, a sério, em vez de dizerem à criança, dizem aos pais. Assim, penso que estas minhas crianças estão até melhor com os adultos, do que alguns adultos com elas. Mas estamos todos a aprender. Sempre.

 

Então, que estar e ser são estes, em que temos estado e sido por aqui?

É de certeza um bom momento para fermentar coisas. Respirar longamente. Experimentar. Uma oportunidade para sermos e estarmos mais próximos de quem queremos ser e de onde queremos estar. E lembrarmo-nos que isso, como o resto, está sempre, sempre a mudar. Sempre. Não há só um caminho. Nem dois. Mas há esta vida aqui, agora. Esta(s) crianças não vão estar aqui sempre crianças. Nem nós sempre pais de crianças.

Confiança! E algum risco…

Maria Inês Peceguina

 

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