Para a minha irmã e as outras amoras da minha vida.

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Parece que tenho tido sorte nisto das pessoas dos meus lugares. Ou isso, ou tendo a optar por itinerários secundários. Caminhos solitários. Veredas estreitinhas onde só cabe um pé de cada vez.   

Já a minha irmã, ainda ontem à noite em conversa sobre a qualidade da matéria humana, assumia despudoradamente (como sempre fez desde que tenho memória), que a maioria das pessoas estão estragadas. São ruins. Educações distorcidas. Despovoadas de interior que valha a pena descobrir. Sempre prontas ao ferimento: estás mais gorda, o cabelo despenteado, ralinho, esses sapatos já não se usam, mas nunca à boa atenção, ao elogio, és uma pessoa muito elegante, gosto de estar contigo, essa cor fica-te tão bem. 

A minha irmã é uma daquelas pessoas de raciocínio afiado. Não de língua. É até mais do silêncio. E só se diz, exatamente no momento indispensável, recorrendo para tal ao número essencial de palavras. Nem mais nem menos. Uma equação. E depois, diz, numa sequência de pensamentos – palavras – pensamentos – palavras, que se vê (ouve) claramente que já matutaram e sofreram do teste da refutação e da discórdia.

          Diz. O seu sentimento, a sua experiência, a sua visão.

          Diz. Sem floreados, rendilhados, sem mansos ronronares.

E eu, que nunca soube dizer coisas assim sem que as minhas bochechas se transformassem nas bochechas de uma mulher do Norte da Europa depois de um dia de sol negligente, ou de algum vinho, sinto um arrepio nos joelhos, uns tendões em contração-distensão, duplamente de espanto e orgulho. Como se o facto de ser minha irmã, fosse mais ou menos metade de mim a dizer aquilo tudo. Só que eu não digo.

E é interessante. Porque ela diz. E não diz com intenção de ruptura, de ferimento. Só diz. O que todos estão a pensar. O que todos sentem. Sabem. Que nenhum se atreve. O que é evidente. Mas que assim nos habituámos, na nossa educação para a hipocrisia e para a repressão, na nossa educação mais para fora do que para dentro, que cuida do verniz brilhante, perfeito, ocultando os fungos, os venenos, os maus odores, e também os prazeres, os perfumes da alma, as manifestações de afecto e de amor. Uma educação que nos educou a não dizer. A não dizer não. Para não aborrecer os outros. Para não entrar em discussão. Para não contrariar os mais velhos. Os hábitos. A ordem desordenada das coisas. Para reprimir e evitar o conflito, evitando assim tudo o que seria possível. Fosse isso bom ou mau. 

Agora estou a ver cinema sobre as mulheres. Disse-lhe. Mansinha, palavras fofas, com airbag. Claro que tudo evoluiu e mudou muito e as mulheres hoje em dia já não sofrem da mesma vivência inferior, mal tratada, desrespeitada… 

         Será? 

         Devolve-me ela. Um ligeiro respirar glaciar a espreitar pelas narinas. 

E continua: “a estupidez das pessoas e de tantos homens na suas vidas estúpidas, machistas, preconceituosos, abusadores.

Olha ontem, de manhã cedo ía na rua e vi um pénis!”.  Estava ao telefone com o Rodrigo e disse-lhe, está aqui um pénis, e ele a pensar que era um pénis separado do seu corpo disse-me, ahhh, chama o INEM, a Polícia. Mas não. Era uma vedação, que tinha aquela rede verde, militar e havia um buraco na rede e um homem estava do outro lado com o seu pénis ali enfiado”. O homem invisível enfiou por ali o pénis. 

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Este pénis ali enfiado, se fossem uns grandes lábios vaginais, ou uma glândula mamária e depois ocorresse uma utilização qualquer indevida por uma mulher, com certeza fazia crescer o pensamento da consequência natural. Estava a pedi-las! Claro que nenhuma mulher que ali passasse lhe ocorreria utilizar aquele buraco para fins sexuais.

E fico a pensar nos filmes… Os últimos que vi. As histórias das mulheres destes filmes, Violette Leduc. Hanna Arendt. Mustang, Wadjda. E os outros todos que não vi. E as histórias todas que eu conheço e são reais. De violência sobre as mulheres. 

Há pouco mais de dois anos conheci uma assim de perto. Vi-lhe a pele pigmentada de sangue que se rompeu por dentro. O medo a fazer titubear a voz. Que abafa. O que é que ela poderia fazer? O homem é polícia. Anda armado. Ela foi pedir ajuda. Dizem-lhe que ela é que tem de sair de casa. Mas precisa de encontrar uma casa com dois quartos. Porque as crianças, duas, precisam de um quarto separado do da mãe. Não vão encher-se de amor e depois rebentar. Ela, financeiramente dependente, claro que não consegue. Tem de ficar. Ele é polícia. Anda com uma arma. Acontece que se passou outra vez com ela. Com a historia dos ciúmes. Ela é uma mulher bonita, de sotaque francês. O que é que ela esperava? Levou-a no carro, à força. Bateu-lhe o mais que pode. Depois deixou-a sair num campo aberto. Isolado. Ela fez-se de morta. Tinha o telemóvel com ela. Conseguiu ligar a pedir ajuda. Não morreu. Dessa vez.

          Reconsidero a evolução dos tempos, dos modos.

Reflicto sobre a minha própria história. A minha condição de mulher. A nossa, a minha e da minha irmã, já noutro manto de invisibilidade. Outra subtileza. Falta de provas. Aquela violência que eu, quase sem dar por isso, perpetuo também sobre as minhas filhas, em comparação ao meu filho. Mas eu também queria andar de skate, jogar minecraft… A Alice. E eu a não reparar de todas as vezes em que ele recebe mais, em coisas, em atenção, em suporte, em celebração. 

Coisas que não são para dizer. Que são assim. Se estamos na época da ciclismo, então à hora da volta é a volta que se vê na televisão. O mesmo para os dias em que o Sporting joga. Felizmente já escapei às touradas. A minha mãe, sogra, avós, tratando-se de assuntos de natureza doméstica, mesmo que estejam eu e o pai das crianças à mesma distância física, mi-li-me-tri-ca-men-te, escolhem-se sempre a mim, invariavelmente. Piloto-automático. A menina precisa de mudar a fralda. Aquela roupa na corda já deve estar seca. Assumem (assumimos) sempre que por ser mulher me cabe a mim cuidar das crianças, cuidar da casa, cuidar do marido. Naturalmente que entretanto acumulamos com estas tarefas as outras todas, dos dias de hoje. No meu caso, apenas modestamente. 

Se vamos jantar fora, em qualquer lugar deste país e há uma televisão, e quase sempre há uma televisão, estará de certeza em canal desportivo. Eternamente. Sem nenhuma questão. As mulheres que fiquem para ali a fingir que jantam em família, a entreter as crianças (as que ainda não ficam de olhos fixos na televisão), enquanto os homens se entretêm a fazer tarefas tipicamente de homens. O futebol, a mastigação, a gestão do telemóvel. 

A quantidade de insultos repugnantes que já ouvi pelas azelhices (ou até não) que aconteceram na condução e que só tiveram a sua existência por ser eu uma mulher, naturalmente. Eu própria na expectativa de que as piores conduções tenham ao volante uma mulher. 

Numa subida acentuada, um autocarro à minha frente não consegue fazer a curva. Há uma fila de carros atrás de mim. É preciso descair o carro (que a propósito tem as minhas três crianças, mais uma amiga, uma jovem e bonita mulher). Descaio um pouco. Não reparo entretanto que a mudança não entrou. Quando é hora de subir, deixo cair mais um pouco, em vez de avançar. E outra vez. O condutor do carro de trás, em vez de recuar também, evitando um acidente, começa a buzinar, i-nin-te-rru-pta-men-te.

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Finalmente à terceira tentativa, o mais tranquilamente que fui capaz nesta acústica de urgência e ameaça sem remissões, avancei. O condutor e o seu carro, na sua missão de moral e disciplina, decidiu então seguir-nos, para me dar a sua lição. Até nossa casa. Recorrendo ao seu carácter infalível, perfeito e divino e, claro, castigador, para ver se aprendo a pôr a primeira, pára ao meu lado e abre o vidro. Pergunta-me se estou louca, aos gritos, as mãos em gesticulação acelerada a abanar em frente aos olhos, se eu era cega, burra? As crianças a perguntar se eu conhecia aquele homem, aos gritos.

Aquele homem que como tantos outros, se considera melhor, superior, com direito a enfiar o pénis nos buracos todos que lhe apetece. Aquele homem cujo maior desejo naquele momento, eu a deixar descair o carro uma, outra e outra vez, era o de que eu descaísse só mais um bocadinho para finalmente tocar no seu carro.     O seu território sagrado. O seu pénis. Para poder assim zangar-se a sério. Justificar todas as perversões, todos os erros humanos da sua existência, todas as vezes que se sentiu no direito de domesticar, de disciplinar, de abusar de uma mulher.

Eu que não sou de resposta rápida, fiz uma espécie de sorriso enjoado. E fui à minha vida. Pensei na minha irmã.

Agora que escrevo isto tudo, percebo que tenho guardadas algumas coisas que não digo nunca. Talvez as organize de forma dispersa, ou talvez as junte todas a um cantinho e as aperte, como costumava fazer com a comida quando queria fingir que tinha já comido muito.

Subsistem assim guiões suficientes para continuar este ciclo de cinema. E não é preciso ir  à procura das mulheres de burca. 

Dizer ainda, ou escrever, que me falta agilidade e reacção quando em confronto com estas situações. Que há talvez um sentido de aceitação que é permissivo, que não acredito que as pessoas sejam todas iguais. Nem que o sexo ou o género definam à partida, e sem outros elementos, uma pessoa. Naturalmente que existem padrões. Que a balança tende a desequilibrar-se mais para um lado do que para o outro. Que há uma continuidade, uma história. Que as coisas não se transformam só porque passa o tempo. E que os homens não são todos malvados. Nem são todos bons condutores. Tal como as mulheres têm também a sua parte de responsabilidade e complacência. 

 Feita esta catarse, convidava(nos), em jeito de desejos de final do ano, uns e outros a sermos mais simpáticos, mais amigos, mais cuidadosos, mais pacientes. Que é dessa experiência continuada, desde pequenino, que depois, tenhamos fé, vão nascer os homens e as mulheres que na surpresa de um buraco inesperado, tratem apenas de o apreciar, ou recorram à imaginação se for caso de lhes apetecer preencher o vazio com alguma coisa.

Inês Peceguina 

 

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O sentido da vida: pelas viagens (des) controladas com final incerto

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From mycotopia

Nunca fui uma pessoa de correr grandes riscos. Pela recompensa orgânica, do êxtase, as endorfinas em dilúvio a fazer precipitar uma ideia e um sentimento de coragem, de bravura, talvez de vitória, superação, de ter atravessado a linha do possível e regressado são e salva. Eu não. 

De todas as vezes em que me aproximei, por exemplo, de cogumelos mágicos, devidamente reconhecidos e organizados nos possíveis destinos existenciais, acabei por ficar do lado de cá. Não fui capaz do salto para o abismo, de descobrir, se eu encolhesse, a porta pequenina do jardim onde vive a lagarta que fuma (vapores?) ou, se eu aumentasse, muitos centímetros acima da minha altura, ver tudo em verdadeira perspectiva, incluíndo os meus pensamentos, já que as viagens fungícas de primeira classe, superam de longe a experiência de voarmos acima das nuvens, e de repente percebermos (o que também tem o seu quê de magia), que há afinal uma organização, uma harmonia na arquitectura hortícola de beira de estrada. Quem diria?

Em síntese, o meu coração até se agita com a ideia de poder efectivamente conversar com unicórnios, ou descobrir finalmente a minha wild beast interior, mas na hora da verdade, aconchega-se nas suas sístoles e diástoles do quotidiano, reservando as ondulações cardíacas para a petit batterie das aulas de ballet. 

Assim, a minha natureza tem sido a da pessoa que gosta de ter as suas viagens sob controlo. Ou que pensa que tem. Os cogumelos poderiam ser um pouco demais para pessoas que padecem desta pretensão e, por isso, temo mais do que a curiosidade que na experiência de procurar Nárnia, ficasse para sempre entre este mundo e o(s) outros, não ficando assim em lado nenhum. 

Na infância, ouvia às vezes essas histórias de perdição. Não que me fossem contadas. Ouvia as histórias que os adultos contavam baixinho uns aos outros, com palavras disfarçadas, mas que as crianças são muito boas a descobrir. As notícias ruins, as desgraças, os infortúnios que atravessavam famílias inteiras e que depois já nem se sabia se a doença mental lhes estaria na genética ou “apenas”, na dinâmica de relações, perturbada, desorganizada a fazer com que, um-a-um, os filhos todos daquela mulher sufocassem para a sempre as suas jovens vidas, todos no mesmo lugar, um-a-um, menos o que foi para o estrangeiro, diminuindo aquela mulher-mãe que, de certeza, acabou por enlouquecer, ficando para sempre entre este mundo e o(s) outros, pequenina, pequenina. Antes tivesse comido um cogumelo…

Quem sabe um dia eu seja uma pessoa mais solta, mais chiil-out, como as músicas da Zara home, mais mainstream, mais let it go, e apanhe o comboio num desses cogumelos, regressando ligeira e segura ao lugar da partida, sem me perder (completamente). Ou talvez me perca, completamente, e nesse (des)lugar me encontre, afinal. 

Por outro lado (isto das polaridades pode afectar como menos se espera), tenho por lema de vida (entre outros) alguns trechos daquela letra de António Variações que diz: não sei até quando vou viver, de modo que vou fugir ao repetir, interessa-me o que está para vir, a descoberta. A vida é sempre uma curiosidade. Não necessariamente por esta ordem. Inspira-me, revigora-me o espírito e funciona como uma espécie de mão invisível que aponta na direção do que está lá fora. A natureza. Os bosques, o campo, os Açores. E também o dia-a-dia que se compõe pelas vivências da vida normal que para mim quer dizer à velocidade cruzeiro. Adagio. Gosto do andamento lento. De fermentados, demolhados, marinados, banho-maria. O que repousa e que espera paciente e com gratidão o tempo por si só, o desenvolvimento por si só, sabendo-lhe que contêm, em si, um plano intrínseco. Cada um. 

 

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Photo by Tony Butler on Unsplash

Que a infância cresce sem ser preciso aceleradores, propulsores, micro-ondas, aditivos, reguladores de acidez. Que as crianças, num contexto rico em afecto e segurança e também em possibilidades de exploração sem interrupções desnecessárias, fazem-se à vida. Dispensando muitas vezes manuais de instrução. Mais, se não existir esse lugar de afecto e segurança, não há exploração nem desenvolvimento que preste. Há apenas viagens mágicas, através de cogumelos mágicos, que são todos os aparatos caríssimos que se compram para as crianças, dispensando grande parte do que a criança teria para fazer-trazer, no seu processo de fermentação pessoal (que inclui sempre vários contextos), elevando para um nível máximo, o máximo de estimulação que é necessário para que a experiência de ver uma grande árvore caída, exuberante confronto com a natureza e o seu fim, sempre iminente, se transforme num bocejo. 

Passa-se isso com as adições e com muitas das educações de hoje em dia. No acesso continuado a um (prazer?) recorrente de hiper-estimulação, hiper-sensação, hiper-existência, acontece que o dia-a-dia se torna depois um lugar sem contraste. Sem alegria. Um contínuo de aborrecimento que não gera acção, nem criatividade, mas tão só um sentir de despropósito, de insignificância, de perda, desperdício.

Assim, quando naquele dia, o miúdo já quase com dois anos, e eu grávida do segundo filho, decidi(mos) que talvez ele precisasse de escola (ou talvez eu precisasse, ou os outros à  minha volta, ele não), a directora inicia a sua conversa: “fazemos todos os dias a mesma coisa”, imediatamente a minha orquestra cerebral principiou Variações. Vou fugir ao repetir, vou fugir ao repetir, vou fugir ao repetir. Creio que até houve interlúdio de Nina Simone, Why am I alive anyway? Fiz o resto da visita já certa de que seria a última vez que ali estaríamos. 

Mas não desisti, logo. Às vezes, sobretudo quando nos afastamos dos processos que foram os das bases das nossas vidas humanas, no meu caso, entre a padaria e a confecção artesanal de sapatos, tendemos a pensar que tem de ser assim. Nestas nov(ss)as vidas modernas (ou pós-modernas). Que (já) não é preciso esperar que o pão cresça sossegado, debaixo do seu lençol branco e macio. Que posso almoçar de pé, encostada a um balcão. Mini-pratos. Pratos da casa, que de casa só têm talvez a impressão da cozinheira que às vezes aparece pela janelinha secreta e que é quase sempre uma mulher, preservando algo de mãe, de cuidadora, de bule, de realidade. Às vezes, quando tudo aparece pronto, embalado, arrumado em filas, fica-se a pensar que é possível ser-se feliz assim, que o tempo todo que no passado foi preciso conceder para chegar ao fim destes processos, banho-maria, foi, afinal, uma grande perda de tempo. 

Não desisti logo. Fui a mais alguns lugares de produção industrial de desenvolvimento infantil especializado. O último era o que tinha as pessoas mais fofinhas, e mais especializadas. Mas também não serviu. Não serviu porque o miúdo tinha já experimentado as delícias do tempo lento. Da família disponível. Da descoberta sem hora marcada. Da revelação da vida à sua volta, numa base segura, de afecto. Essas bases não são substituíveis, nem há um desejo de partida a partir delas, até já sermos muito, muito mais crescidos. E foi por isso que ele me perguntou, mal dois anos, porque é que me queres deixar aqui, se eu não conheço estas pessoas, não confio nelas e quero estar contigo?

E eu não tive outra resposta senão aquela que é a resposta quando não temos mesmo uma resposta e disse-lhe: porque tem de ser.

Mas não tinha. O que tem de ser, é o que para cada um faz ressoar a vibração interna que  é a da sua melodia. Para a maioria, apesar de todos os avanços tecnológicos, químicos, de rede social, e outros, mudaram muito pouco os aspectos mais básicos da nossa existência. Continuamos a precisar todos das mesmas coisas. Pele, colo, calor, alimento, atenção, protecção, amor. Por ordens que se vão recriando ao longo do dia. Dessa mistura lenta, que acontece às vezes já perturbada por tudo o que entretanto fomos descobrindo sobre o desenvolvimento infantil e que, estranhamente, afastou tantas vezes o olhar da nossa criança, do nosso bebé, sairá o pró-biotico elementar. A segurança, a confiança, o mundo interno que depois permite que o mundo externo, estranho, distante, possa ser experimentado, conquistado, vivido, num processo gradual de independência dessa primeira pele que é a do cuidador.    

 

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Isto tudo, para dizer que as escolhas que vamos fazendo não são, para muitos de nós, apenas escolhas pedagógica, educativas. São escolha de vida. São uma outra forma de viver. 

 

 

Que não se definem, assim espero a bem dos mundo internos, sobretudo pela negação. Ou seja, não são em contramão. Não são em contra-nada. Mas a favor. A nosso favor. Em direcção ao que nos faz sentido nas vísceras, no coração, no cortex pré-frontal se não lhe interrompermos as ligações preciosas com outras paragens do cérebro. Colectivamente, a maioria segue veloz pelo grande rio, convencidos de que não existe senão aquele leito e que na dúvida, poderemos talvez estar um pouco mais ao largo, aqui e ali, queixando-nos, suspirando pela impossibilidade, pela dificuldade, pela sombra gigante e densa que se adensa quando quando o pensamento tende para a pergunta: e se fosse tudo diferente? Se eu pudesse, se eu quisesse? Conseguiria? E depois?  

Não sei. Não sei se o depois é igual para todos. Nem sei se seria bom que fosse. Como o pão… Depende da luz, da humidade, logo, da altura do dia, do ano, da temperatura das mãos que o amassam, da intenção e da emoção com que essas mãos o transformam. E mesmo assim, não sai sempre bem. É conforme. 

Ouço outra vez Variações. A vida é sempre uma curiosidade. E Nina Simone, num registo mais intenso e fracturante, brake down and let it all out.

É aproveitar que vem aí o fim do ano. São 12 desejos. Juntar o mínimo possível de cogumelos para que depois no dia 1 ainda se esteja em condições e depois é seguir em frente, com tudo o que estiver para vir. Não será perfeito. Porque será real. 

 

Inês Peceguina

Arquitecturas da Infância: I – O quarto do bebé

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(…) Vale a pena viajar um pouco pela nossa árvore evolutiva.

A proximidade mãe-bebé (aqui bebé estende-se até por volta dos 3 anos), é comum a todas as culturas e praticamente universal entre os primatas (McKenna, Ball & Gettler, 2007). O ser humano, em comparação com os outros primatas, é particularmente vulnerável e dependente dos seus cuidadores, situação que resulta, supõe-se, do facto de nascer com o equivalente a 25% do volume cerebral de um adulto, constrangimento inerente às limitações anatómicas que a marcha bípede e os nossos grandes cérebros nos trouxeram. A pediatria ocidental, ao sugerir assim a separação por volta dos 6 meses, não tem integrado outros conhecimentos, designadamente, da antropologia, ou mesmo da biologia e da psicologia da evolução, focando-se muito mais nas necessidades do adulto, do que nas do bebé. 

Aqui encontram o texto completo que escrevi para a revista Vento & Água. Agradeço tanto este convite e os lugares inesperados onde a vida me vai desaguando.

Uma reverência à Sofia Batalha, como se faz no ballet.

Inês Peceguina

O Direito à educação vs. a Escolaridade obrigatória: a partir do relatório sobre “a educação em casa” (Eurydice)

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Picture from Spilled Milk

Acabou de sair o último relatório da Eurydice (2018/2019) sobre o estado da arte Europeu relativamente às “políticas de educação em casa” (home education policies). 

Há mais ou menos dois anos, a mesma entidade publicou um breve relatório, uma espécie de repto à Europa, sobre a situação da crescente procura das famílias pela educação em casa. Alertava para o preconceito sobre o assunto. Para as preocupações – não fundamentadas – sobre as razões que levariam as famílias a este outro rumo. Dizia que mais importante do que erradicar esta possibilidade (o que acontece silenciosamente sob a forma de dificultar tanto o acesso que acaba por ser ao contrário do que há uns anos dizia o actual PR Marcelo Rebelo de Sousa – é permitido, mas não se pode fazer), mais importante, dizia, é conhecer, estudar o fenómeno, enquadrá-lo nesta era pós-moderna, compreender se é um desejo de fuga, de isolamento, ou de proximidade, de significado, de slow living. Em vez de silenciar, o que acontece de forma declarada, via pseudo-especialistas que ao abrigo dos seus resumés juram a pés juntos o mal que faz às criancinhas não passarem pela experiência escola tradicional, como se fosse evidente (não apenas no território social, mas também), o bem que lhes fez, passados tantos anos. Outro assunto. 

Eurydice, para além de uma rede europeia que analisa e compara dados dos sistemas educativos europeus, para assim ajudar a que os países tomem decisões informadas, era também, noutros tempos, esposa de Orpheus. No dia do seu casamento, Orpheus interpretava lindas performances musicais e Eurydice dançava, pelos campos, esvoaçante e bela como qualquer deusa. Um dia (nestas coisas da mitologia, chega sempre tragédia), Aristeus observava Eurydice, maroto, e Eurydice persuadida por esta criatura, um Deus Menor que se dedicava já nesses tempos à apicultura, pisou uma víbora, coitada, morrendo assim imediatamente. 

Eurydice contemporânea nasceu em 1980 e esperamos que não apareça nenhum Aristeus, e que possa trazer (alguma) luz a quem tem o poder de decidir, olhando para a esquerda e para a direita e para as direcções todas entre uma e outra, para que possam ser assim considerados elementos que vão para além do da experiência própria. Era bom que fosse mais estreita, mais íntima, a relação entre o que se investiga e descobre, e depois as decisões dos grandes responsáveis pelo estado geral da educação.      

Este relatório é de natureza de epidérmica. De primeira camada. Observa as regras em cada país participante, 38 países, incluíndo Portugal. Traços gerais, do lado do sistema. É um olhar que pode ser um bom ponto de partida para pensar algumas questões. A mim, hoje, interessa-me uma espécie de refrão que surge aquando da análise dos países do Reino Unido e também da Finlândia: Educação obrigatória não é sinónimo de escolaridade obrigatória. O relatório não tece conclusões profundas e filosóficas. Não faz uma discussão geral. A mim, hoje, interessa-me esta premissa: Educação obrigatória não é o mesmo que escolaridade obrigatória; mesmo que a maioria das crianças estejam na escola todos os dias.

Outros três aspectos são no entanto salientes: 

(a) Em metade dos 38 países, os educadores (sejam eles a família ou um professor contratado) têm de ter formação académica enquanto docentes e;

(b) em quase todos os países, a evolução da aprendizagem é monitorizada pelo sistema (seja esta local/regional, ou nacional);

(c) Em 13 países, a educação em casa só é permitida por razões de doença (muito grave, em alguns países, tais como na Alemanha). Contei 11, de modo que se alguém encontrar os dois em falta e achar por bem partilhar, será bem vindo. Então, para além da Alemanha, temos a vizinha Espanha, depois o gigante Sueco, a Grécia, a Bulgária, Chipre, Estónia, Letónia, Roménia, Montenegro e Turquia. 

Em Portugal, embora não exista uma referência objectiva à situação de fragilidade de saúde, a descrição é a de que se trata de uma situação de circunstâncias excepcionais. Tal como noutros países (uma dúzia), implica um pedido de autorização às autoridades educativas, referem. Diz também que há novidades fresquinhas prestes a sair, anúncio de que já temos conhecimento há algum tempo, mas na trama burocrática que é o grande máquina tradicional, não é assunto prioritário e assim tarda o fumo branco, não obstante algumas fagulhas que se vão escapando e deixando antever a direção que tomará. 

Por exemplo, não é correcto que a situação em Portugal seja condicional a uma autorização. A não ser que a opção aconteça após o período de matricula, é – neste momento – possível que seja uma escolha de base, devidamente sinalizada no boletim de matrícula, sendo – exclusivamente – critério, que os responsáveis tenham determinadas habilitações literárias e co-habitem com a criança. O facto de não ser – neste momento – uma opção condicional à uma autorização, ao contrário do que fantasia o Ministério da Educação (ME) e os seus funcionários, tal como quem nunca pensou mesmo bem o que implica esta opção, a maioria das famílias não viria (virá) a optar pelo educação em casa só porque o acesso é livre. 

Há, evidentemente, uma perturbação já antiga e bem instalada no sistema, uma identidade secreta, o seu id, a sua pulsão. A crença de que se não for uma coisa à força, então todos se escapam (da escola). Se não for pelo uso da força – a obrigatoriedade é uma forma de utilização da força, um acto de coacção, então algo de muito terrível poderá acontecer. Um pouco como Eurydice, a deusa. No fundo, há também um acto de mania, de manifestação em modo super-ego, que assim se mostra protector da infância protegendo-a, incluindo, da família, às vezes, por razões necessárias e evidentes, do domínio da sobrevivência, outras, como é o caso, porque é distinta a sua forma de entendimento do que significa educação. 

Em comparação com esta tendência evolutiva no sentido de um controlo mais estreito sobre quem opta pela educação em casa (sem demonstrar contudo interesse por saber o que acontece nestas famílias), o relatório refere alguns países (e.g., a Dinamarca, Irlanda e Liechtenstein), onde a avaliação pela escola não é obrigatória, sendo contudo um direito, no sentido de permitir que estes alunos obtenham um certificado.

Portanto, ok, existirão famílias e crianças para as quais faz muito sentido ir utilizando estas provas, estas certificações, enquanto que para outras pode não fazer. No fundo, se a pessoa quer seguir um determinado percurso e se o acesso é condicional a uma certificação que, neste caso, é dada pelas escolas, então é natural que as famílias, a seu tempo, procurem as escolas, devidamente preparadas para obter então a certificação. Que não é o mesmo que considerar que a educação em casa é da responsabilidade da família, incluindo a escolha dos métodos pedagógicos, do percurso educativo da criança, e depois obrigar a que sejam realizadas provas que verificam se a criança tem as mesmas competências que a outra que está na escola. Naturalmente, a não ser que a a educação em casa o seja afinal escolarização em casa, não terá. Pode ter, mas pode não ter. E muitas vezes não tem. Só porque há um entendimento de que o processo poder ser mais lento, ou apenas divergir noutras direcções. Muitos dos conteúdos curriculares, na minha perspectiva, continuam a ser uma enorme perda de tempo. Tempo irrecuperável. 

Lets go Irish! A Irlanda é um país muito interessante, não apenas por ter sido o primeiro país do mundo a ter um imposto ecológico sobre a utilização de sacos de plásticos, já há quase duas décadas (ou devido aos seus famosos pubs) mas também por considerar que os pais são os primeiros educadores da criança. Parece uma coisinha sem importância, mas não é. Por exemplo, à luz deste princípio, prevê que os pais possam educar as suas crianças noutros contextos que não sejam o das escolas públicas, onde se incluem as escolas privadas e a casa, sendo que também não existe obrigatoriedade de seguir o currículo nacional.

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Oliver Jeffers, An orang-utan to knock down the milkman.., Stuck, HarpersCollins Children’s Books, 2011

(Oliver Jeffers é Irlandês, tal como Chris Haughton)

Novamente, tal não significa que a maioria, não sendo obrigado, deite fora. Pelo contrário. Se for um bom currículo, mesmo que em modo educação em casa, é provável que as famílias optem por ter esta estrutura por base.

Diz a Lei que “os pais devem garantir que a criança recebe uma determinada educação mínima”. E embora não defina legalmente o que significa mínima, define através das “Orientações para a Avaliação da Educação que ocorre noutros locais para além das escolas”, uma definição funcional deste mínimo, incluindo formas de avaliação, no fundo de auto-regulação. Palminhas para a Irlanda!

Os pais devem registar a criança numa organização chamada Child and Family Agency, que faz parte do Departamento dos Assuntos da Infância e dos Jovens. Podem escolher a abordagem que sentem (sim o relatório diz mesmo he/she feels) que melhor responde às necessidades da sua criança garantindo que a criança aprende e progride de forma razoável, em função da sua idade, habilidades, aptidões e necessidades de aprendizagem. And then, como antes referi, os miúdos não são obrigados a prestar provas, embora sejam advertidos sobre a sua importância no caso de terem o objectivo de prosseguir estudos. Parece muito sensato. Muito razoável. Parece democrático. Depois o Estado até tem os painéis de treino  (Education and Training Boards) ou aulas para adultos que podem ser usadas com esta finalidade. Parece… Bem! Há, ainda não acabou… Os pais também podem, sob inscrição em tempo próprio, optar por fazer provas nas escolas para obter os certificados “Junior and Leaving”. Reforço a questão do “parecer”, pois por vezes, pelo menos assim é neste nosso pequeno Portugal, aquilo que está escrito não é depois o que se faz. Não saberemos sem ser através das famílias Irlandesas que o possam testemunhar se, efectivamente, a educação em casa se processa mesmo nesta belíssima coreografia. A Irlanda também é um país pequeno mas, daqui, parece grande e com espaço suficiente para mais alguns…   

Aller en France!

Este país que é já um pouco português, e que tem aquela bandeira tricolor da liberdade azul, igualdade branca e fraternidade vermelha. A propósito, lembrei-me agora da trilogia do Polaco Krzysztof Kieślowski, Trois couleurs, que explora pela arte do cinema estes ideais políticos. E tem Juliette Binoche, o que para mim é um bom princípio.

Voltando ao relatório, em França é uma opção azul; escolha da família. A família pode assumir esse papel extra, ou contratar professores qualificados. Não faz a distinção em função de existirem ou não professores contratados. Os pais não precisam de estar habilitados, academicamente. Muitas famílias (sobre isto já tive testemunho real), são apoiadas por cursos à distância, através de uma inscrição no Centro Nacional de Ensino à Distância. Este, ao abrigo do Estado, proporciona serviços públicos de educação à distância, ou ainda através de organizações/escolas privadas  (também à distância). Assim, também não faz distinção. É a cor branca da bandeira, não há cá ensino doméstico, ensino individual e ensino à distância, cada um no seu galho. Há diversidade, dentro da opção da educação que tem na sua base a casa, em vez de na escola. Porque o que é obrigatório, no sentido de ser um dever de quem cuida, é a educação e não a escolarização ou escolaridade. Não são uma e a mesma coisa. E isso nota-se, nestes países. Não se nota noutros. Não se nota na maioria. Mas naqueles onde se nota, invariavelmente (ou quase), são também aqueles que na sua história têm já uma história longa de serem interessantes exemplos. 

Só para terminar, em França, a cada ano ou a cada dois anos, o presidente da câmara tem o dever de investigar a situação da família, apenas com o intuito de garantir se os responsáveis pela criança se apresentam consistentes nas razões que os levaram a optar por esta modalidade, e se são razoáveis as condições de saúde e de vida da família. Há ainda o que o relatório refere como “controlo pedagógico”. 

Em síntese, a pessoa responsável pela criança é entrevistada, explicando quais são a abordagem e os métodos que utilizam. A criança, por sua vez, é avaliada em conformidade com as referência dadas pelo adulto. O controlo, referem, foca-se assim nos conteúdos da educação proporcionada, as competências e conhecimentos adquiridos pela criança, bem como na sua progressão, tal como relatada pelo responsável e avaliada através da criança. Não é a Irlanda não senhor. E também, desde 1998 que o azul escureceu um pouco (a liberdade), sendo que as instituições educativas, no que se trata de escolhas, devem ser consideradas prioridade. Seria interessante averiguar os motivos que estiveram na base desta mudança. O que aconteceu em 1998, para além da Expo em Portugal e de Saramago ter recebido o Nobel da Literatura e de eu ter entrado para a Universidade e conhecido todo um novo mundo da violência entre pares até então vivido sob a forma de amigas de infância que cuspiam cascas de pipas para o meu cabelo, entre outros sub-produtos da sua malvadez que deixarei para outro dia.

Retomando. Em França há muitas famílias que praticam esta modalidade. É respeitada e apoiada. Isso já é muito mais do que acontece em Portugal. Até têm uma revista, e até já fomos entrevistados, através da associação MEL (Movimento Educação Livre), sobre o status quo em Portugal.     

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Photo by Siarhei Plashchynski on Unsplash

Viajemos agora até ao Reino (mais ou menos) Unido (by the way, love this Foil Arms and Dogs episode on Brexit). Não obstante as divergência noutras matérias, as regras são mais ou menos as mesmas para Inglaterra, País de Gales, e Irlanda do Norte, e também Escócia. A Inglaterra é o país onde existe mais liberdade. É o país, Europeu, com mais tradição e número de crianças nesta modalidade. Os pais que escolhem a educação em casa são responsáveis por garantir que a educação que providenciam é eficiente, a tempo-inteiro e adequada à idade da criança, habilidades, aptidões e necessidades especiais que possa ter.

 

Não é obrigatório um registo/matrícula no sistema, seguir o currículo nacional, nem  realizar avaliações formais. Contudo, as autoridades locais têm o dever de monitorizar a qualidade da educação em casa (há até instrumentos de avaliação muito interessantes, que avaliam recursos, mas também a qualidade da relação entre os cuidadores e a criança). As autoridades locais têm também o poder para intervir se se considerar que a criança não está a receber uma educação adequada. A criança pode ser assim obrigada, nestes casos, a continuar o seu percurso em contexto escolar. Trata-se de uma medida de protecção da criança. Na Escócia, é necessário um pedido de autorização quando há uma mudança da escola para a educação em casa. Mas, referem, as autoridades não devem recusar este consentimento de forma pouco sensata. Esta descrição faz pensar que na maioria das vezes, o pedido é aceite. O que é necessário, reforçam, é o pedido de autorização para retirar a criança da escola, mas não a educação em casa em si mesma. Tal como em França, não é exigido aos pais nenhum tipo específico de habilitações, senão que-possam demonstrar que educação é adequada à sua criança, através de alguns indicadores dos seus objectivos e recursos. Lovely! 

Também não há avaliações ou exames obrigatórios. Se os pais (e a criança) pretendem obter uma determinada qualificação, devem informa-se sobre se, e com que facilidade, terão acesso aos exames ou avaliações. Referem ainda que os pais devem estar conscientes de que algumas qualificações e reconhecimentos podem ser completa ou parcialmente avaliadas, internamente, por professores, que podem ser particularmente difíceis para aprendizes nesta modalidade. A acreditação (na Escócia), só é possível através de uma autoridade com essa competência (Scottish Qualification Authority). 

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Photo by Jake Hawkes on Unsplash

Agora a cereja nestes territórios da educação tradicional e, ao que parece, não apenas – a Finlândia. Há 4 anos visitei a Finlândia e algumas escolas. É mesmo verdade. Os miúdos andam descalços, trabalham-brincam pelo chão, os pais não entregam, vão e ficam o tempo que podem, as transições entre família e casa são planeadas nos espaço de 12 meses, há saunas onde estão todos semi-nus. Não há vedações à volta da escola. Nem castigos porque a criança se esqueceu de levar o livro que requisitou na biblioteca sendo assim impedida de voltar à biblioteca, pela professora (isto também é real, li há uns dias o depoimento da mãe no FB).

Ok, então na Finlândia, não existe essa coisa de escolaridade obrigatória! Quem diria? E como é que eles se saem tão bem? Deve ser da sua natureza superior e pálida. Os belíssimos vales e lagos. O gelo? Se calhar não conseguem fugir com o frio. Se calhar a escola é quentinha. Se calhar é mesmo, de muitas e variadas formas. E assim escusa de se obrigar. O ser humano tende a convergir para coisas quentinhas. Lembrei-me agora de Harlow. Arrepia-me sempre esta experiência. Esta constatação tão evidente do que devia ser, assim sem nenhuma hesitação. Muito brevemente, Harlow preparou uma experiência em que dava a a escolher a macacos rhesus bebés duas mães (nenhuma verdadeira). Uma tinha alimento. Outra tinha pelo. Podem agora ver o vídeo no link se houver dúvidas, ou só para observar a beleza que é este mecanismo da vinculação. 

Então a Finlândia… A escolaridade não é obrigatória. A educação sim. Os pais podem assim optar pela educação em casa. A maioria não escolhe esta opção. Por razões que são óbvias. Uma delas, porque a família não é removida do processo educativo. Outra, suponho, porque as crianças estão felizes, tranquilas e não regressam a casa cansadas, deprimidas, ou a pensar que se não forem boas e muito boas na escola, é isso que são na sua totalidade humana. Nós aqui temos uma simbiose perigosa entre o aluno e a criança. A identidade toda em aceleração centrípeta para a dimensão académica. 

De volta a casa. Em Portugal, refere o documento, estes tipos de escolarização são excepcionais e foram desenvolvidos para ajudar as famílias que por razões de mobilidade profissional (pensei que o ensino à distância fosse mais apropriado nestes casos, ou para a itinerância) e outras de natureza puramente pessoal (uau) desejam ensinar as suas crianças. Prossegue, a responsabilidade pela qualidade da educação do estudante é dos pais/tutores legais ou do estudante quando maior (isto é um pouco estranho considerando que a escolaridade é obrigatória até aos 18 anos, mas enfim). É também um pouco dissociativo que a qualidade da educação seja da responsabilidade dos pais e depois estes não estarem mais envolvidos (para já) na sua avaliação. Assim, a avaliação da aprendizagem e a monitorização é feita através da apresentação de avaliações da aprendizagem que demonstrem progresso na escola onde o aluno está matriculado. 

Continua, o ensino doméstico e individual requerem um acordo entre a escola onde o aluno está matriculado e os pais, definindo assim as responsabilidades de ambas as partes. Por fim refere então as tais novidades que estão para sair, embora estes dois últimos pontos sejam já em si novidades. Ou seja, a Lei actual, não prevê protocolos, nem dossier do aluno, nem monitorização. Não prevê outra coisa que não sejam as provas de equivalência à frequência que conferem uma classificação final e absoluta e uma certificação de conclusão de ciclo. Mesmo as provas de aferição, este ano consideradas universais e acolhendo assim, também, os alunos nestas modalidades, não têm esta valência e podem não ser realizadas sob o aval da Direcção. Não creio, porém, considerando o atrito que existe neste momento entre a maioria das famílias em modalidades outras que não sejam a tradicional e as escolas, que a Direcção seja favorável a este pedido das famílias, caso chegue.

RESUMINDO.

Quis esta escrita partilhar a informação do relatório acima (e abaixo) identificado. Não é dispensada a sua leitura na integra. O que aqui escrevi são as dimensões que a minha singularidade observa como mais importantes. Queria ter mergulhado mais na questão da educação como um direito versus escolarização como uma opção no exercício desse direito. Que há outras. Outros contextos. Outros recursos. Que obrigar a estar, a aprender, a relacionar-se (relacionarmo-nos) é cada vez mais perigoso. Que no desejo de protecção, se faz constritor, encerrando-se sobre si próprio em lugares onde tudo é vigiado (espiado?), seja sob o olho subjectivo (humano), ou o olho electrónico que tudo guarda, com excepção da interpretação e da intenção (pelo menos algumas).

Perde-se, assim, a luz que vem de fora. Ao fechar as janelas para não entrarem os perigos do exterior, principia todo um movimento de ebulição interna. Os seres humanos precisam de poder sair, fugir, precisam de liberdade, para regressar. Como outros primatas, é no contexto do cativeiro que o conflito mais evolui (o mesmo acontece com as pequenas crianças em salas do pré-escolar em comparação com o que acontece no espaço aberto, sobretudo na natureza).

Que as relações se deterioram. Que a acidez se acumula, corroendo uns e outros. Que se pensasse noutras formas de trazer as famílias e os miúdos à educação, esta educação. As muitas educações. A escola, como mais um recurso, o mais antigo, o mais organizado, teria todas as vantagens em optar pelo mel, em vez do vinagre. O agave ou tâmaras, no caso de uma orientação mais vegetal. Trata-se de um voto de confiança. Mas verdadeiro. E quando é verdadeiro, observo isso tantas vezes nos seres humanos mais extraordinários do planeta – as crianças (a maioria, algumas não são, acontece), é gigante o compromisso. Como que um germinar de coisas como o valor da palavra. Do aperto de mão. O olho-no-olho. Eu acredito em ti. E ao oferecer essa abertura, genuína, a maioria dos outros sentindo-se acreditados, de confiança, tenderá a cumprir esse desejo, essa expectativa. Somos os espelhos à nossa volta. 

Somos o que (nos) ouvimos dizer todas (e tantas) as vezes, até ser verdade. 

Inês Peceguina

 

Referência Bibliográfica

European Commission/EACEA/Eurydice, 2018. Home Education Policies in Europe: Primary and Lower Secondary Education. Eurydice Report. Luxembourg: Publications Office of the European Union.

Sobre o beijo leviano e os destraumatizados

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Photo by Rod Long on Unsplash

A história da humanidade tem a qualidade do pêndulo. 

A imprevisibilidade da coreografia atmosférica. 

Só assim se explica a Idade Média. Só a assim se explica Trump e Bolsonaro. 

No território da infância, porém, no contexto europeu, e talvez noutros, dá ideia que desde há uns tempos para cá que o pêndulo se desloca na mesma direcção. Em modo ascendente. Nuvem que se adensa num movimento de existência própria. Positivismo. 

Agora chega, mais uma vez, a história do beijo. Não é uma história nova. Já antes outros escreveram, disseram. Já muitos pensaram. Em silêncio, muitos. Para não ofender.

Na generalidade, concordo que os beijos não devam ser gratuitos. No registo da infância, sobretudo, não parece boa ideia incentivar ou reforçar o beijo técnico, sob pena da criança desenvolver a ideia de que deve assim entregar o seu beijo, desprovido de emoções. 

No caso do beijo à avó, acresce que há por vezes já uma pele muito seca, enrugada, de barba a fazer lembrar as bruxas das histórias. A ameaça de uns dentes que podem lançar-se boca fora se o beijo lhe for devolvido. 

À medida que vamos olhando para a criança como um sujeito de direito (ouvi esta expressão de Laborinho Lúcio), amontoam-se as coisas estúpidas que foram acontecendo à nossa própria infância e que agora, despertos para essa existência que é suficiente e grande no seu presente, em vez de apenas uma promessa para o futuro, aguça-se o conflito interior. 

O pêndulo que sobre, que nos projecta para um lugar de observação e de reflexão, trazendo consigo uma visão da floresta. Em vez de um ponto, único ponto, o nosso ponto. Neste descolar que se abre como um abraço para deixar entrar uma criança pós-moderna, recebemo-nos também na nossa criança e temos de decidir, às vezes, qual das duas afinal está “certa”. 

É desse conflito cognitivo que emerge o discurso do destraumatizado. O não me fez mal nenhum, ou só se perderam as que não foram dadas (referência às palmadas). A criança mal-tratada, que o sendo num contexto de maus-tratos em série (todas as crianças eram mal-tratadas), parece assim não ter valor. Como se a massificação do sofrimento o diminuísse de algum modo. Como se o diluísse na sua singularidade. Se no passado, a nossa criança foi mal-tratada e sobreviveu, que mal faz agora à criança pós-moderna que experimente um pouco do fel da humanidade? 

Mais, desconfiamos ainda que boa parte da boa pessoa que depois nos tornámos, foi em resposta a esses pequenos (às vezes grandes) maus-tratos. Que assim aperfeiçoámos a resiliência. Acontece porém que o trauma não tem de ser sempre em versão cinematográfica, atirando os traumatizado para debaixo da mesa ao som de pipocas crepitantes. Há traumas que são menos objectivos. Às vezes invisíveis ao próprio. Que vivem no plano onírico. Nos vícios do dia-a-dia. Nas impossibilidades quotidianas. 

Lembro-me de algumas vivências violentas da minha própria infância. Não sei se se constituíram enquanto traumas. Mas sei que são para sempre memórias de dor, de culpa, de revolta. 

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Photo by Annie Spratt on Unsplash

Sempre gostei de gatos. Gosto-lhes da independência. Do ronronar. Sempre tivemos gatos. Alguns por casa, outros por ali. Não se praticava o controlo da natalidade. Pelo menos assim com bons modos. Quando as gatas pariam, eu e a minha irmã tentávamos o mais possível esconder os gatinhos bebés, até que conseguissem esconder-se eles próprios. Eventualmente éramos sempre mal-sucedidas. A minha avó acabaria por encontrar a ninhada. Enchia-se um balde de água e com uma esfregona a avó afogava os gatinhos. Eu a a minha irmã a chorar, a implorar, a observar os gatinhos que um-a-um deixariam de emergir, deixando um silêncio pesado e um ódio mortal. Desejei muitas vezes que um dia alguém lhe fizesse o mesmo, à minha avó, num balde gigante. Afundá-la. Afogá-la. A minha avó morreu há poucos meses. Não morreu afogada. Nem eu lhe desejei nada parecido à medida que me despedi da minha infância e a perdoei. Na sua experiência, afogar gatos seria uma violência sem nenhuma importância. Uma tarefa necessária. Um mal-menor que há-de ter aprendido na sua infância seguramente três vezes mais violenta que a minha.

Lembro-me de pássaros atirados à parede. A rebentar por dentro. Um fio de sangue a entornar-se como se fosse uma lágrima. Matanças. Várias. Mães-cabras à nossa porta, a chorar os cabritos que lá dentro berravam. O mais possível. Até serem mortos, esventrados. Até estarem ali pendurados, a lingua de fora. Um alguidar cheio de sangue. Uma vivência de morte brutal.  

Lembro-me da solidão. Dos esconderijos mentais onde fui guardando estas memórias como se estivessem fora de mim. Não me pertencem. Calhou ser eu a estar ali. Podia ser pior. Ao António o pai obrigava a esmagar os gatinhos. Com uma pedra gigante. O sangue a espirrar. Bocados de gato. E bocados de criança. Criança estilhaçada. Era assim que os meninos se faziam moços.

Era assim. 

O normal pode ser às vezes absolutamente demente. E a condição de ser a experiência de muitas crianças, agora adultas, não lhe retira a violência. Não a diminui. Cada um depois encontra forma de a integrar na sua história. Banalizá-la, pode ser uma forma.

Claro que beijar uma avó de barba rija duas ou três vezes por ano em nada se compara a estas vivências sangrentas. Mesmo que a pele imaculada da criança se avermelhe um pouco em resultado da fricção. 

A criança sobrevive a estes atentados todos. Porque não se trata de uma questão de sobrevivência, mas de qualidade de vida. Qualidade de experiências. 

O que a mim me preocupa agora muito, para além da incapacidade de tantos adultos em assumir a série de desgraças que foi a sua infância, é o facto das avós velhotas (porque as outras ainda estão na maioria das vezes vivaças e depiladas) serem uma espécie de totens bizarros. Ocultos nesses lugares inóspitos onde se armazena a velhice a sério. As avós que não existiram nunca na vida daquelas crianças. Porque se há coisa que tenho observado, é que quando existe essa proximidade, espacial, especial, de relação, o beijo surge naturalmente. Mesmo que incomode um bocado. Mesmo que a avó não cheire maravilhosamente. Mesmo que a dentadura ameace esvoaçar. Mesmo que as mãos estejam sempre frias e com uma espécie de orvalho que nem por isso as deixa menos secas e encaracoladas. 

O que me preocupa, é a dispersão. O abandono. A ausência destes avós velhotes. 

A minha filha Alice acreditava que cada beijo que dava à avó velhota tinha o poder de lhe aumentar a vida. Um elixir da juventude. A minha avó nunca foi pessoa de muitos beijos. Nem eu insisti muito para um beijo de chegada e um de partida. Tentei que compreendessem o valor desse beijo. E acredito que embora não fosse um beijo de grande desejo, é difícil desejar beijar uma pele de 95 anos que deixa ver tão bem a caveira lá por trás, houve de certa forma uma consciência de termos o poder para cuidar, para dar, para compreender que um dia todos podemos vir a ter aquela pele. E quem nos dera, que alguém nos possa abraçar. Um beijo. Cada beijo talvez o último. 

Preocupa-me também esse lado. O dos avós que pouco têm para se sentir ainda parte do que quer que se tenha transformado a sua família. 

Assim, quando estamos com alguém fora do circulo habitual, previno de antemão “os meus filhos não dão beijos”, porque os beijos não são de facto coisas que sejam para dar. Ao mesmo tempo, se considerar que o beijo pode ser muito importante, se lhes puder explicar de algum modo os prós e os contras. O significado dessa excepção. Então abrimos excepções. Alertando para a possibilidade de, na mesma, ser deles a última decisão. Sem contra-partidas. 

Espero que cada vez mais nos libertemos das tantas violências que ainda existem. Sejam sobre a infância ou depois dela. E descobrirmos que não somos piores pessoas se não passarmos por pequenos infernos mundanos. Somos apenas pessoas. Menos magoadas. Com menos a perdoar.    

 

Inês Peceguina

A família educa e a escola instrui. Não, espera, mudou: a escola educa, a família cria. A família faz a criação da criança, como com as galinha, nas aldeias, e as hortas de varanda, nas cidades.

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Este texto é um ALERTA para os que acreditam num determinado tipo de educação

Está em discussão um documento que pode vir a ter (aliás, já tem, de forma sub-reptícia) efeitos nas ofertas educativas que não sejam publicas e tradicionais. Ou seja, em tudo o que for privado, bem como no Ensino Doméstico e Individual.

É agora o momento de levantar o braço, a mão, a cabeça, o corpo todo! Termina já a 30 de Setembro. Fico impressionada como é que nos passa assim, ao largo, esta discussão…

Princípios orientadores dos direitos humanos relativamente às obrigações governamentais sobre as escolas privadas

(Human rights guiding principles on states’ obligations regarding private schools)

(…) Em última instância, a resposta à questão sobre se existe o direito a ser educado em casa (homeschooling), ao abrigo da lei internacional, é não. Os pais gozam da liberdade para criar as suas crianças em linha com as suas convicções morais e religiosas, livres da interferência desnecessária do Estado. Contudo, as crianças gozam do direito à educação. Ambos são importantes, mas a liberdade parental não pode triunfar sobre os direitos da criança.

Há um movimento chamado Alliance for Self—Directed Education (Aliança para a Educação Autónoma), cujo trabalho tenho vindo a acompanhar ainda antes desta se ter transformado numa estrutura. Em síntese, trata-se de um colectivo de pessoas que assumiram como sua a missão de lutar pela liberdade educativa um pouco mais além daquilo que a maioria de nós, que também nos identificamos com esse propósito, designadamente, e passo a traduzir: educação autónoma (confesso que prefiro o inglês SDE – self-directed education), é a educação que resulta de actividades que são escolhidas pelo próprio e das experiências de vida da pessoa que se torna educada, independentemente do facto dessas experiências terem sido ou não escolhidas com uma finalidade educativa. Pode incluir aulas, ou lições, se escolhidas deliberada e livremente pelo próprio; mas a maioria não ocorre dessa forma. A maioria resulta das experiências de vida diárias, à medida que as pessoas seguem os seus interesses naturais e assim aprendem, pelo caminho. As forças motivacionais incluem a curiosidade, o prazer lúdico, e a sociabilização – que promovem diversos tipos de conquistas, a partir das quais as pessoas aprendem.

A educação que acontece desta forma conduz necessariamente as pessoas por diferentes caminhos, embora esses caminhos muitas vezes se sobreponham, uma vez que os interesse e objectivos de vida de cada pessoa incluem aspectos que são únicos e outros que são partilhados.

A educação que é autónoma, contrasta com a escolarização coerciva ou imposta (que ocorre na maioria das sociedades ocidentalizadas, incluindo no nosso país), que é forçada sobre as pessoas, independentemente dos seus desejos, sendo motivada por sistemas de recompensa e castigo, tal como se observa na escola tradicional. 

A escolarização obrigatória tem geralmente o propósito de aumentar a conformidade, em vez da unicidade, operando através da supressão, em vez da criação, no sentido de cuidar e proteger, inputs naturais da curiosidade, prazer lúdico e sociabilidade.   

Hoje de manhã, lia em diferido o Público (jornal) de sexta-feira, também sobre escola e educação. O Bastonário da Ordem dos Psicólogos referia no texto Immanuel Kant, uma sua observação que aqui transcrevo – “É por isso que se mandam as crianças à Escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente os que se lhes ordena, de modo a que depois não pensem mesmo que têm de pôr em prática as suas ideias”.

Remontará ao séc. XVIII esta observação e, ainda assim, tanto que encaixa em tantos contextos educativos contemporâneos. Claro que agora acrescentam-se muitas outras variáveis. E as crianças já não se habituam à calma como noutros tempos. Porque a calma tem de crescer primeiro lá por dentro. E para que isso aconteça, temos de andar muito para trás, antes dos 6 anos, que é a idade escolar no nosso país. Temos de regressar ao princípio. E saber como foi que a regulação emocional do adulto, cuidador, se foi desenvolvendo e impregnando no bebé, que assim, a pouco e pouco, se foi tornando auto-regulador. Que assim foi aprendendo as ferramentas da autonomia. Devagarinho. A autonomia acontece em lume-brando. E não é compatível com os hábitos do berçário e da creche. Deviam ser consideradas excepções, estas respostas que entretanto passamos a utilizar de forma indiscriminada. Como se boas, por natureza. Não são.

Retomando o assunto sobre o qual me propus a escrever hoje. A Aliança, num dos seus contactos regulares, trouxe consigo um documento e um conjunto de links que podem ser visitados no título, acima, em inglês (ou aqui). Um alerta. Um apelo à acção. Um “se é mesmo isto que lhe faz sentido, então é tempo de agir”. A comunicação refere assim que a Global Initiative for Economic, Social, and Cultural Rights está em processo de escrita e finalização dos Human Rights Guiding Principles on States’ Obligations regarding Private Actors in Education. Esclarecem, tal significa que todos os que estão envolvidos na educação privada, incluíndo as free schools, as Sudbury schools, os Agile Learning Centres, e também o Ensino Doméstico, podem ser afectados pelas decisões tomadas e pelas orientações estabelecidas por estes princípios orientadores. As FAC do site são uma boa ferramenta para obter mais informação de forma mais concisa e directa. Assim, se estamos aqui pela causa, e queremos ver os nossos direitos, as nossas convicções, as nossas crenças e conhecimento salvaguardados, devemos juntar-nos a este movimento.

Termina a 30 de Setembro.

A Aliança recomenda alguns passos simples e oferece recursos que ajudam a tomá-los. Sigam este link.

É muito importante que o discurso, o nosso, seja consistente, consciente, fundamentado.

A bandeira deste documento em elaboração é o direito da criança à educação. A um determinado tipo de educação. Vem para proteger a criança da família, se o estado entender que tal é preciso.

O que complica tudo, muito mesmo, é o facto de termos às vezes princípios diferentes sobre o que se constitui como uma boa educação. E aqueles que a determinam, utilizam necessariamente as suas outras lentes, sendo às vezes impossível de observar o que para “nós” pode ser óbvio. Ao mesmo tempo, devemos acautelar que uma escolha diferente da tradicional, seja sempre a melhor. Por si só, nenhum caminho é o bom caminho. E o facto de se optar por ensino doméstico, por abordagens centradas na criança e auto-reguladas, não quer dizer nada em si. Continuam a surgir casos um pouco por todo o país, de crianças que em ensino doméstico que não estão bem. Da mesma forma que não estão bem tantas crianças que estão em contexto escolar. Naturalmente que o ensino doméstico, na fase em que nos encontramos, tem muito mais que provar do que a escola. E a escola, e o Estado, trazem consigo esse grande chapéu de chuva ou de sol que é o da responsabilidade maior sobre o direito da criança à educação.

Vale a pena ler este artigo: Is there a right to be homeschooled? O artigo debate o assunto sob o prisma legal, observando a realidade de vários países. Termina com a resposta à questão que lhe serve de mote.

Traduzo: Em última instância, a resposta à questão sobre se existe o direito a ser educado em casa (homeschooling), ao abrigo da lei internacional, é não. Os pais gozam da liberdade para criar as suas crianças em linha com as suas convicções morais e religiosas, livres da interferência desnecessária do estado. Contudo, as crianças gozam do direito à educação. Ambos são importantes, mas a liberdade parental não pode triunfar sobre os direitos da criança. Os Estados têm de garantir que os pais podem exercer a sua liberdade parental para criar os seus filhos de acordo com crenças religiosas e convicções morais, o máximo possível, garantindo no entanto que esta liberdade nunca viola o direito da criança à educação. O ponto no qual um Estado pode legitimar a interferência na liberdade parental relativamente ao direito da criança à educação é determinado pelos critérios mínimos que estes (os Estados) estabelecem, de forma a proteger os objectivos da educação, garantindo que todas as crianças gozam do direito à educação, tal como determinado pela lei internacional. E (…) ao abrigo da lei internacional devem ser os Estados a decidir quais são os standards, os critérios e a regular o seu cumprimento e, por consequência, a decidir até que ponto são os pais livres para educar as suas crianças em modalidade homeschooling.

O que a mim me assusta assim de forma intestinal, que agora o intestino está muito na moda, é a ligeireza das palavras. A sua indubitável natureza sobre o que se constitui como educação. A forma como se compartimentaliza e fragmenta a “criação” da criança da “educação” da criança. Aí está. Não é latente. Não é sub-entendida. Não é aparente. Como uma sombra. É declarada. Descarada. E cheia de força, na sua dimensão internacional. Na sua natureza burocrática, assim-assim democrática.

Aos pais não acomete o acto de educar, de ensinar, de orientar ou permitir a orientação autónoma da criança. Podem celebrar juntos o Natal, ir juntos à missa, estar em família nos rituais morais e da natureza do credo. Podem sentir-se livres para escolher brinquedos (atenção que deverão estar em conformidade com o que o estado determina que é educação, já agora), estilos alimentares, mais ou menos. Podem algumas coisinhas. Mas outras, aquelas que são a sério, outras, como a do bem-estar maior da criança, essas não se podem deixar em mãos alheias, entenda-se, as famílias, os pais.

Assim de repente, nesta urbanização humana, onde não há vizinhos, não há ruas para brincar, não há perigos para ultrapassar que não sejam meticulosamente determinados se se constituem (ou não) como perigos de natureza educativa, a família perde a sua função maior. A sua função biológica. O seu propósito maior, enquanto espécie. Que a de dar tudo por tudo pelos seus.

Há famílias em que isto não acontece? Há. Seria possível ajudar estar famílias, proteger estas crianças, sem usar da regra “se um se porta mal, apanham todos?”. Sim, seria. Mas para isso, as famílias têm de se unir. Regressar às comunidades. Retomar com sentido de missão o seu papel de educadores maiores. Aceitar o desafio de estar atentas aos outros que estão à sua volta, sobretudo as crianças.

Pode parecer assim uma espécie de idílio. Um suspiro, um “pois”, mas entretanto já se deitou fora o bebé com a água do banho. E eu sei que já há e há cada vez mais famílias, mais pessoas, a sacudir o pó do cabelo, a enraizar o pé na terra. A querer e a saber que é para isto que aqui estão e que não vão sossegar, na sombra das leis internacionais. Porque não estão contra a protecção da criança. Contra o seu direito a ser educada. Pelo contrário. Foi precisamente por esse direito que a pouco-e-pouco regressaram à sua essência. De olhar limpo. Ouvido pleno. A esquecer todas as regras e recomendações do pediatra, do psicólogo, do professor, da avó. A estar ali, todos os pontos percentuais, a observar aquela criança. A sentir. A encontrar outra linguagem, que não sobrevive só do hemisfério esquerdo nem se regista assim, com palavras e leis internacionais.

Para mim, o que devia ser lei internacional, é o direito à qualidade da relação. O direito a ser uma família completamente. A ser mãe. A ser pai. A ser bebé. E esses papéis, não se esgotam nas tradições, nos rituais, nas convicções, nas crenças. A educação é tudo o que fazemos e o que não fizemos que assim, pela sua ausência, também nos deixou a sua marca. E os estados, em vez de se substituirem à família deveriam ser melhores na sua protecção, na sua promoção enquanto elementos centrais e insubstituíveis no seu papel de cuidadores, de educadores, sim. As famílias têm o direito e o dever de escolher a educação para os seus filhos. Têm o direito, o dever e a responsabilidade de fazê-lo de forma informada.

São as minorias colectivas que provocam a mudança. Nas palavras cantadas do Pensador Gabriel, lanço o repto: Até quando? 

“Não adianta olhar pro céu

Com muita fé e pouca luta (…)

Não adianta olhar pro chão

Virar a cara pra não ver

Até quando você vai ficando mudo?

Muda que o medo é um modo censura”

Inês Peceguina

A Socialização, o Ensino Doméstico, a Investigadora e a Sra. da Limpeza (quase sempre uma e a mesma pessoa)

“O Ensino Doméstico está para a sociedade em Portugal como as Berlengas. Quase nunca ninguém lá foi, mas já todos ouviram falar. Ao contrário das Berlengas, porém, uma espécie de Galápagos lusitana, o ED, esse bicho estranho, tende a ser sistematicamente mal entendido.”

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Sou muitas coisas. Entre as muitas coisas que vou sendo, sou investigadora. É a minha profissão. Mas é mais do que isso, é a minha identidade. A minha natureza. Trabalho enquanto investigadora mas nesse lugar, estou longe de ser ou estar no topo.

Neste caso, em particular, não é dessa investigadora que eu quero falar. É da outra, a que eu sou em quase todos os outros momentos da minha existência. Em quase todos os papéis. Enquanto cozinho e organizo metodicamente as componentes para o exercício experimental e aparentemente impossível do salame de chocolate sem ovos, sem açúcar e sem leite. Enquanto conduzo e registo na memória as conversas entre as minhas crianças. Enquanto me detenho a observar os estendais e a verificar o grau de obsessão-compulsão de estendedor. A descobrir a sua intimidade, o seu agregado familiar, o seu nível de vida e, claro, se separa as cores, ou se a opção pelo azul-cinza, é no fundo uma forma de prevenir essa tarefa aborrecida e interminável, que é a de separar trajes por pantones.

É uma condição, essa da investigadora transbordante; que me faz ter sempre muitas dúvidas e que me impõe, intrinsecamente, aqui de dentro do meu corpo, a não dizer coisas da boca para fora. Por defeito. A não me pronunciar assim confortavelmente e arrogantemente aos ombros dos meus galões académicos. Só porque os tenho.

A minha investigadora, é prudente, sensata, talvez um pouco insegura, também, pela falta de produtividade na academia de que tecnicamente faz parte e que lhe confere esse papel. No dia a dia, sobre algumas matérias, terei naturalmente um olho mais treinado. Já terei lido e reflectido sobre o assunto. Já terei revisto, avaliado, decidido sobre se sim ou não, se um determinado trabalho empírico é suficientemente bom para ver a luz do dia.

Esta proximidade a uma linguagem hermética, técnica, inacessível aos “comuns”, podia dar-me assim uma qualquer mania de grandeza. Felizmente não dá. Dá-me reticências… Muitas, cada vez mais. Quanto mais leio, investigo, penso, escrevo, observo, analiso, mais tudo parece maior, mais complexo, menos evidente e linear. Por isso, quando alguém me pergunta o que é uma determinada coisa quer dizer, quase nunca tenho respostas, mas em vez disso muitas perguntas. E muitas coisas para ler e para fazer crescer mais perguntas. A leitura é como se fosse água num regador e faz crescer “mistérios”, que o nome que os meus filhos chamam ao ponto de interrogação.

É por isso, talvez insegurança minha, não sei, para variar não sei muitas coisas, que as pessoas que têm sempre uma resposta na ponta da língua, aguçada, afiada, peremptória, são pessoas que me fazem muito medo. Medo e calor. São pessoas que activam o meu sistema simpático. Entro num estado como se já tivesse feito 7 ou 8 diagonais naqueles dias em que a Maria João, a professora de ballet, está com a sua energia em modo supra-humano. Entro num estado palpitante, que me faz transpirar as pálpebras. E já sei, quando isso acontece (e não estou a dançar), já sei. É o meu estado de choque. Queria sair daqui imediatamente e não ter visto ou lido o que vi ou li.

No dia 14, excepcionalmente, saiu o Jornal Dia 15. O Dia 15, há mais ou menos duas semanas, pediu que respondesse a umas questões sobre educação, em nome da M.E.L., a Associação Movimento Educação Livre, de que faço parte já há alguns anos. Por regra, somos chamados a reflectir e a dissertar sobre o Ensino Doméstico (ED), que é o território onde temos estado mais activos. No entanto, a M.E.L., tem uma missão mais ampla, mais eclética, derramando-se para além das fronteiras do ED. É sobre liberdade, sobre família, sobre educação. Sobre a infância. O Dia 15 está aí para pensar. Para promover o pensamento. A número que saiu excepcionalmente a 14,e não a 15, tem um especial Educação. Agradeço por todos e a todos o convite e a possibilidade para estar ao largo nesta linha de pensantes-pensadores-pró-pensamento. Obrigada à Sandra Gonçalves, de quem chegou o desafio!

Muito para ler e pensar.

Algures, como seria de esperar numa reportagem que se propões a olhar em 360º, o mais possível, estaria o ED. Confere. Está lá. Muitíssimo mal, mas está.

O ED está para a escola em Portugal como as Berlengas. Quase nunca ninguém lá foi, mas já todos ouviram falar. Ao contrário das Berlengas, porém, uma espécie de Galápagos lusitana, o ED, esse bicho estranho, tende a ser sistematicamente mal visto, mas por todos assumido como imediato, transparente, evidente e, assim, todos têm opinião, razão, fundamento e mais ainda, juízos. E os juízos, já se sabem, quando são provenientes de pessoas importantes, as mais importantes na pirâmide intelectual, têm consequências.

O que me fez transpirar, é que a leitura e observação sobre esta opção educativa – o Ensino Doméstico, de que nos deveríamos todos orgulhar, já que no quadro da União Europeia, somos dos poucos países que, teoricamente, ainda dá algum crédito às famílias enquanto cuidadores, o que me faz aquecer o cérebro e porventura fumegar a Glia, que uma substância que nutre e suporta os neurónios, dizia, é que a dita opinião, é dada por uma “especialista”.

E então a minha questão é: especialista no quê? Em ED? Quantas crianças e famílias que praticam ED é que a especialista conhece e estudou?

Colocaria a mesma questão aos meus colegas da psicologia do desenvolvimento e da clínica. Aos pediatras e pedo-psiquiatras. Às assistentes sociais. Às comissões de protecção de crianças e jovens. Aos professores. Aos educadores. A quem por regra são pedidas opiniões sobre o ED, e sobre o qual, como as Berlengas, sabem apenas o que ouviram dizer, que alguém disse que ouviu.

Quantas famílias acompanham ou acompanharam?

O que observam ou observaram?

As crianças? Conversaram com elas?

Em que dados se baseiam estes especialistas para afirmar, sem margem para dúvida, sem reticências, sem nenhuma hesitação, que o ED compromete o desenvolvimento psico-social das crianças?

Que investigações demonstram e com que população e medidas?

Medidas desenhadas para o contexto escolar?

Aferidas para a população portuguesas?

Que publicações demonstram que, comparativamente às crianças em contexto escolar tradicional, as crianças em ED são socialmente menos competentes?

O ED prejudica o desenvolvimento de competências sociais?

Do que tenho conhecimento, empírico, e como refere o exemplo a seguir, um entre vários, os poucos estudos que existem revelam exactamente o contrário. Eu traduzo e explico:

O artigo dá pelo título: Homeschooling and the Question of Socialization Revisited(em português seria: Ensino Doméstico e a Questão da Socialização Revisitada”, o que subentende que este é um mal entendido bastante comum, e por essa razão, deixo aqui um “vá lá”, segunda oportunidade, à especialista que pode ter deixado passar as referências…

Prossegue agora o resumo do artigo (apresento só a minha tradução, mas aqui, está o original:

Este artigo revê investigação recente sobre a socialização das crianças em ensino doméstico. A investigação demonstra que os pais das crianças em ED esperam que os seus filhos respeitem e socializem com pessoas de diversos backgrounds, proporcionando Às suas crianças uma diversidade de oportunidades de socialização fora da família, e acreditam que as competências sociais dos seus filhos são pelo menos tão boas como as das crianças que estão na escola. O que as crianças em ED pensam, sobre as suas competências sociais é menos claro (são crianças). Em comparação com as crianças que frequentam a escola convencional, contudo, a investigação demonstra que as suas amizades se caracterizam por ser de melhor qualidade, e que as suas relações com os pais e outros adultos são melhores. São felizes, optimistas, e estão satisfeitas com as suas vidas. O seu raciocínio moral é pelo menos tão avançado como o das outras crianças, e podem ter uma maior tendência para agir de forma não egoísta. Enquanto adolescentes, têm um forte sentido de responsabilidade moral (que foi uma coisa que faltou à especialista) e exibem menos perturbações emocionais e problemas de comportamento que os seus pares. Aqueles que vão para a universidade são socialmente activos e abertos a novas experiências. Os adultos que estiveram em ED, enquanto crianças, são civicamente envolvidos e funcionam de forma competente em todas as dimensões avaliadas até agora (note-se a prudência!, isto sim, é de especialista, de investigador). Assim, a visão alarmista do ED, não é suportada pela investigação empírica. Sugere-se que estudos futuros se centrem não nas consequências ou resultados da socialização mas, em vez disso, no processo 

Pergunto ainda, com base em que evidências empíricas se sustenta o argumento do ED se tratar de uma moda, como anti-vacinação, uma tendência que é contra-sistema?

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Por fim: Como é que a humanidade se desenvolveu estes milhões de anos todos, sem berçários, creches, jardins infantis, escolas? (Aqui um bom artigo para quem quiser, e puder, claro, pensar sobre o assunto)

Pronto, outra vez, já estou a principiar a aceleração do meu batimento cardíaco. De certa forma, poderia agradecer a estes especialistas por contribuirem para a manutenção do meu exercício cárdio.

Então é só isso? Anos e anos a crescer para ser especialista e depois faz a mesma observação que a senhora da limpeza?

 

 

 

Corrijo, a senhora da limpeza, essa, faz muitas perguntas e tem muitas dúvidas. A senhora da limpeza, tem espírito critico. Que não é a mesma coisa que achar que se tem o direito a criticar só porque se fez um doutoramento ou se é médico ou professor e há muitos anos que se anda a ver criancinhas.

As criancinhas, não são todas iguais. Isso é que é o grande desafio que alguns decidiram aceitar.

As famílias em ED são contra o sistema? Não faço a menor ideia. São todas diferentes.

Eu sou. Eu sou contra a bovinização da humanidade. Qualquer que seja a sua expressão.

O problema das coisas, quando se transformam em sistemas, grandes sistemas, é sempre o mesmo. Uma espécie de des-gestaltização. Não emerge nada do todo. Não deste todo. Este todo colossal, de altivos e aliciantes tentáculos, que nos ganham pelo medo, tanto medo, o todo que aniquila as partes.

E quanto mais cedo as partes entrarem na engrenagem, mais depressa se lhes silenciam as questões, e se enchem todos os buraquinhos vazios da sua existência: as dúvidas, a observação, o silêncio, as perguntas. Tudo preenchido com certezas e medos. Não há sonhos que possam entrar.

Cérebros inteiros, pequeninos e em crescimento sináptico acelerado, ainda tenrinhos, para encher de sabedoria vazia. Cultura geral. De quem? Qual cultura? A de ser arrumadinho, limpinho, obediente? Um mundo nas suas rodas dentadas perfeitas no exercício de contribuir desde cedo para as lindas pochetes da máquina económica.

O sistema é um soporífero. Uma vida de suspiros, de anuência. “Sim!” “O que é que se há-de fazer?”

Preocupa-me que num Jornal criado com o desejo do pensamento, se possa ir beber à mesma fonte de água turva. Estagnada. Preocupa-me que aqueles que deveriam ter na sociedade um papel de incentivo à dúvida, à incerteza, à promoção do espirito científico, o não façam. Que estejam no confronto das suas carreiras, das suas cadeiras. Dos seus nomes sonantes. As suas castas. As suas instituições. Preocupa-me mais ainda que nem sequer sintam ou saibam que talvez não tenham todas as respostas.

E lanço agora produtos altamente inflamáveis, tóxicos, para a fogueira. Talvez se inflamem e cheguem ao Dia 15, o do próximo mês. Talvez vão mais longe ainda. Que se ponha um vento, que o Verão tarda, que chegue assim um rugido, que se pare um pouco.

Isto às vezes fatiga-me. Sempre a repetir as mesmas coisas… Deixa de ser estimulante. Dá-me às vezes vontade de partilhar a minha lista de leituras e enviar para jornais DGE, Ministério da Educação, Serviços de Psicologia e Pediatria, CPCJs, IACs e investigadores e especialistas em Educação, claro, igualmente importantes nisto de decidir sobre o bem-estar de uma criança.

Ora bem… A socialização.

A escola é um lugar privilegiado para socializar. É. Não tenho nenhuma dúvida. Aqui, sou exactamente como a maioria dos meus colegas especialistas. Está cheio de pessoas. O ser humano é um animal social, logo, na presença de outros, socializará. Quase sempre.

Que tipo de socialização? Isso é já outra cantiga, como referia um pouco o artigo acima, que processo? Andamos há mais de 30 anos a estudar, a observar, a verificar que uma quantidade ainda jeitosa de crianças e jovens, são excluídos, rejeitados, negligenciados, invisíveis nos seus grupos de pares. Desde muito pequeninos. A maioria, começa assim que entra, aos 3, 4 anos, e continua, por aí fora. Pode ser que se safem numa carreira artística. Ou não. Muitos desenvolvem psicopatologia. E são infelizes, para sempre.

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Já se desenharam centenas de programas. Que se puseram em prática. E estes números, mais ou menos 15-20%, não baixam. Porque será? Ainda assim, é muita gente pequena e jovem, a deixar cair.

Então? Conta a partir de quantos? Eu tenho as minhas teorias. Mas são só isso. Seja como for, custa-me aceitar que se abrace sem nenhuma interrogação, que a escola, por si só, seja entendida como uma espécie de exigir das competências sociais. Não é.

E mesmo os que não fazem parte desta minoria excluída e vulnerável, tenho dúvidas sobre que socialização, que valores trata a escola de inculcar no seu currículo oculto. Mais ainda, nesta era pós-moderna, que prima pela co-existência de tantas formas de vida, boas vidas, e não apenas uma, ou umas quantas, o que tem a escola a dizer sobre a multiplicidade, sobre a imprevisibilidade, sobre diferenças, todas as diferenças?

Recomendaria já agora mais algumas leituras à minha colega investigadora que teceu as suas observações no Dia 15, designadamente, “Navigating through the Storm”, de Aharon Aviram, que é sobre a escola e a democracia na era pós-moderna. Creio que poderia ser um bom exercício de reflexão e que eventualmente abalsasse as fundações da certinha absoluta, que é sempre um perigo para quem está assim ao nível da nuvens, em termos intelectuais, como a fama.

Terei também, embora não me apetecesse mesmo nada, de abordar a questão da vacinação. É verdade que as famílias que praticam ED não vacinam ou vacinam menos? Há estudos que mostram que sim, outros que não. Isso, em linguagem cientifica, quer dizer inconclusivo. Mais, os estudos não são sobre a população portuguesa. E eu também não sei, não tenho dados.

Mas sei que é possível que se as famílias estiverem numa de parentalidade consciente, empreendedora, se quiserem afirmar os seus direitos, a sua sabedoria, a sua responsabilidade, olhando para lá do que chega nos jornais, pesquisando, observando, deixando crescer a dúvida e nela, uma confiança de que vale a pena ter duvidas, então é possível que exista aqui alguma correlação sim.

É também possível que façam uma alimentação mais consciente. Que as mães usem mais copos menstruais em vez de pensos descartáveis. Que não tomem hormonas para controlo da natalidade. Que prefiram fraldas de pano, reutilizáveis. Que não comam lixo, embrulhado em lixo, e depois deixem o lixo por aí. É possível.

Porque quando as pessoas entram numa situação de ter dúvidas, num espírito identitário de investigadores, então isso expande-se. E gradualmente outras dimensões da vida da pessoa, que a pessoa devidamente treinada se habituou a não tomar conta, de repente, estão aí para cuidar.

Se isto for ser anti-sistema, eu sou. E espero que as famílias em ED o sejam também, e ainda as outras que não estão ED. Que o sejam cada vez mais.

Outra coisa, isto está longe de ser uma moda. Uma moda, em rigor estatístico, que é bom de se ter em situação de especialista, é uma medida de tendência central, de um conjunto de dados, de observações, e que refere o valor que ocorre com mais frequência, o valor mais comum de um conjunto de dados, seja amostral ou populacional. Ora bem, o ED, não obstante o seu crescimento significativo nestes últimos 4 anos, está longe de ser uma moda, representando muito menos de 1% de toda a população estudantil.

Moda é enfiar as criancinhas em creches logo aos 3 meses, ou aos 6 se for com sorte. Moda são os spinners, a perda de limites sobre o privado e o público, os saquinhos de guloseimas que se oferecem às crianças que não fazem anos mas que estando na festa, não se livram de contrair uma cárie ou ainda lá, ou depois enquanto vão no carro e adormecem e depois já ninguém lhes consegue abrir a boca para lhes lavar os dentes. Sobre isso ninguém se preocupa ou escreve.

O ED será sempre uma excepção. Que não é o mesmo que considerá-lo excepcional. Eu explico. Não podemos esperar que o sistema, esta maquinaria oleadíssima que mantém viva (ou em sobrevivência) a humanidade, que dela se alimenta e por ela é alimentada, não permite que o ED seja em rigor uma opção para todas as famílias.

Em boa parte, porque as pessoas já não são capazes de imaginar, não sabem que têm opções. Nesse sentido, constitui-se como uma excepção. Mas, tal não significa que às famílias esteja vedado o acesso a esta opção por outras razões que não sejam as que já estão legalmente previstas e que são (já agora aproveito para fazer este exercício informativo): co-habitar com a criança e ter determinadas habilitações literárias. Aproveito também para informar que está neste momento aberto um pequenino período de consulta publica (até ao dia 24 de Julho), referente à regulamentação do ED. Não vá o diabo tecê-las. 10 dias úteis não chegam para nada, quando se espera um envolvimento sério, verdade? Foi por isso que os pais passaram a ter 15 dias de licença parental paga, em vez dos 10 anteriores, uau! Outro assunto, porém.

E assim, reforço, não se trata de uma moda. Que sosseguem os vossos alicerces. A maioria vai continuar a fazer o que sempre fez e a queixar-se, como sempre fez.

A repetir. A repetir. A repetir.

 

Um beijinho e desejos de muito boas férias! Pode ser que sobre tempo, para pensar!

         Inês Peceguina

 

A boa-morte proibida: Uma teoria mais ou menos romântica de um fim anunciado

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Morrer dói? Pergunta a Alice.

Morrer, morrer, acho que não. Mas às vezes, para lá se chegar, pode doer sim.

Eu não quero morrer mamã. Posso, posso não morrer? Posso ser o principal? O principal nunca morre, pois não?

Nestes meses que passaram, embora não estivesse muito envolvida e atenta, a questão da eutanásia voltou a discussão. Diz o meu dicionário do Pages que eutanásia consiste no, passo a citar “acto de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis.” A etimologia desta palavra, de origem Grega, contudo, de certeza mais antiga que o Pages, refere que a palavra é um composto das palavras “eu”, bom, verdadeiro, e “thanatos”, que significa morte. Juntando um e outro resulta “a boa morte”. Assim, limpinho, morte sem sofrimento.

Não refere os pressupostos da doença incurável, nem das dores intoleráveis, sabendo-se de antemão que isto da dor não se mede numa escala igual para todos, embora seja consensual que certas afecções são necessariamente muito dolorosas.

Ora bem. Parece que a eutanásia já andava por aí antes da epidural (que curiosamente, sendo do sec. XIX, também contém na sua identidade um pouco de Grécia). O que é interessante, é que enquanto, no geral, a epidural é bem vista, por retirar a dor numa situação de dor (potencialmente) intolerável, já a eutanásia… Uhmm.

O meu desejo profundo, é que todos os que são contra, assim de forma anunciada e fundamental, possam (1) ou morrer de morte súbita, seja ela por acidente externo ou interno ou (2) preparar o caminho para lidar com a longa e penosa travessia. Que lhes seja reservado esse longo trajecto, essa grandeza de caracter. Que não é para todos.

A questão é que embora também o parto sem epidural não seja para todas (umas porque não têm opção, outras porque têm), parece-me que há uma coisinha que tende a desequilibrar tudo. É que a dor, no parto, para além de ter um propósito evidente, resulta, tudo a correr bem, numa boa recompensa (tudo a correr bem, repito). Na maioria das vezes, dói que se farta, a pessoa pensa que se vai desmembrar e desfazer aos bocados, mas depois, o corpo é sábio e (quase sempre), sobrevive-se e bem e não se esquecendo logo, isso não é verdade, leva tempo, trata-se, no entanto de um princípio da existência. Um principio de uma vida. Um re-set. O princípio de uma nova vida dos principais cuidadores. Ainda assim, quem o desejar (às vezes a pessoa não deseja, mas a coacção obstétrica, que é um tipo de violência sobre as mulheres, assim o designa), pode decidir ter esta experiência sem dor, ou com níveis de dor mais ou menos “normais”. Há no entanto consequências. Há sempre consequências. Pagam-se umas pelas outras. Mas seja como for. Está por aí, e é globalmente (mais ou menos) respeitada. Porque isto do sofrimento, se não for cuidado, preparado, se a pessoa não tiver em si uma pontinha de estoicismo, não é bom. É mau.

Agora a epidural da morte. Essa, tanto que se fala, que se zanga, que se apela, que se condena, que é como se fosse uma espécie de fogueira de velhotes a cheirar a xixi e que já ninguém quer ter por perto.

É assim que tratamos os nossos patriarcas e matriarcas?

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Não, não é. Livramo-nos deles, primeiro, desmembrando as famílias o mais cedo possível. Cada um na sua caixinha. Os bebés no berçário, as crianças pequeninas na creche, as outras a seguir no jardim infantil ou pré-escolar e por aí fora. Os adultos “activos” nas empresas. Os velhos, nos lares. Tantas vezes noutra cidades, noutra região. Casas de repouso com nomes delicados e inspiradores, faz de conta que dali, no sótão, parte um acesso directo ao céu fofinho para onde vão depois da idade de ouro.

O lar onde está a minha avó, ao menos nisso é rigoroso e sem meias-medidas. A vista da sala de estar, grandes janelas, é para o cemitério. Dali podem observar os cortejos fúnebres, quase sempre de alguém que ainda ontem estava ali a babar-se, mas a quem nunca se poderia pensar que uma eutanásia fosse justa, porque primeiro a vida, não é?

Tenho de dizer, agora, que co-existem vários conceitos de vida. O batimento cardíaco, por si só, no meu conceito, não chega. Sobretudo, quando se trata de um coração que já bateu aproximadamente 3 biliões de vezes. Não é o mesmo que um batimento que acaba de começar.

E então é assim que repudiamos a possibilidade de uma boa morte. Como um elogio ao sofrimento. Temerosos. Não somos capazes de deixar que o outro se esquive da dor, mesmo que ele peça, implore, mesmo que a sua lucidez, quase intacta, aos 95 anos, nos diga que desta vez já não há regresso. Que se chegou ao fim da linha. Que mesmo que se arranje um aparelho, para diminuir o isolamento da surdez que chegou nos últimos dois meses, que mesmo que os olhos voltassem para ser capazes de ler todos os dias, que já não lhe interessa.

Está cansada. Dói. Morrer às vezes dói Alice. Dói a espera. Dói a observação em movimento lento, quase congelado, interminável. No mesmo lugar. No corpo que não responde. Que se recusa a comer. Porque sabe. O corpo. Também o fazem outros corpos de outros animais. Sem combustível, cessa a animação. O ânimo. A vida. Pede ao Senhor que a leve. Agora que já foi fazendo as despedidas. Agora que dos seus olhos para sempre em nevoeiro se pôs a olhar (pela última vez?), cada um dos seus.

Não quer estar aqui. Já lhe basta ver-se a encolher de dia-para-dia. A ver-se o esqueleto debaixo da pele. A pele fininha, transparente. As mãos macias. Uma avó que nunca teve mãos macias. Nem mãos, nem natureza. Dói. Tudo dói. Engolir. Respirar. O movimento esse já nem merece tentativa. Como se os ouvidos do corpo também estivessem em estado de surdez irreversível. Alguém que me vire para a janela. Alguém que me faça sentir que sou um corpo. E não apenas uma consciência num vazio.

Esquiva-se a conversas de ânimo. Nós para ali meio a fingir que talvez uns suplementos. Que se comesse. Que proteína. Muita água. A hidratação é importante. Nós para ali a não querer ver o óbvio. Em contramão. A desviar-nos de todos os suspiros que fazem os dentes cerrar e os olhos quase desaparecer. Dos esgares. Da ironia.

Dói Alice. A espera dói. A desesperança dói.

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Não há uma epidural para esta dor? Não é isto uma espécie de tortura? Nos dias de hoje, com tantas possibilidades. Se a pessoa não está preparada para enfrentar este caminho penoso, se não quer, porque é obrigada?

O Senhor é que decide.

Olha que confortável. Então e o Senhor não se pronuncia sobre o nascimento? Ou outras aventuras onde se pratica a medicação analgésica? As pessoas que se orientam pelos desígnios do Senhor, nestes territórios da vida quotidiana, não aliviam as suas dores noutros momentos? Deixa ver. Se a pessoa se orienta pela determinação divina a este ponto, então: nunca tomou um benuron, ou outro paracetamol? Arranca dentes a sangue frio? E Deus nos valha se algum dia precisar de fazer uma cirurgia ainda mais rigorosa que a extracção de um dente do siso. Que de certeza que recorrem à meditação, ou hipnose, ou a um conjunto de rezas que têm um efeito equivalente à analgesia de última geração. Sem nenhum desprimor por estas estratégias. Não é disso que se trata. Também há o álcool e as drogas, outras drogas. Que bom que seria que cada vez mais estivéssemos conscientes e próximos do nosso corpo, dos nossos sentimentos e emoções, dispensando elementos externos e invasores. Há sempre consequências, isso é certo…

Mas, e isto é importante, há circunstâncias em que geralmente se abre a possibilidade. De uma outra resposta. É por isso que vale a pena a diversidade. Claro, que aliviar a dor é uma coisa. Terminá-la em absoluto, juntamente com tudo o resto é outra. Não é comparável.

Mas e se tudo o resto for só dor?

Se não existir mais nada?

O que é que eu lhe digo? Em contramão. A evitar os olhos-nevoeiro. A ultrapassar a toda a velocidade a mãos que nunca foram macias. O esqueleto que já se vê. A cabeça, grande, naquele corpo magro, quase só pele e osso. Em contramão. O que é que eu lhe digo? Em palavras não digo nada. Já não há nada para dizer. Peço em silêncio ao Senhor a quem ela pede, minuto-sim-minuto-não, que a leve daqui. Que termine já esta agonia.

Digo-lhe, a ela, que está pronta. Que já sinto saudades dela. Que dela já só existe o etéreo. O invisível. Que está ali ainda. Que talvez esteja para sempre. Dentro de mim. Dos seus filhos, netos bisnetos. Digo-lhe que gosto tanto dela. Que vou gostar até eu um dia ser também só espuma. Não há mais nada que eu possa fazer. Dou-lha a mão. Pela última vez? E saio devagarinho. Como que a deslizar. Como que a deixar-me um pouco ali.

Se aí não estiver, avó, que estejas virada para a janela. E que a janela se abra. Completamente. A tua janela deixa ver o teu quintal. Que é o lugar onde tu sempre foste mais tu. Que te levantes desse corpo gasto, e avances janela fora. Que sintas a tua força toda. Dos teus mais de 3 biliões de batimentos cardíacos, os últimos já com a ajuda da “pilha”, como dizes.

Se aí não estiver avó, e gostava tanto de estar, que saltes por essa janela e te diluas em todas as flores, todas as árvores, pela ribeira, pela calçada, pelo céu escuro de onde nascem as estrelas mais brilhantes do mundo. Que sejas uma delas.

Se estiveres sozinha, que não te sintas mesmo sozinha. Que sejas capaz de te sentir outra vez leve, forte, determinada. E que tenhas sempre muitos livros para ler. São sempre uma boa companhia.

E nesses livros, estará a tua história. Serás tu a principal. E até podes morrer, muitas vezes, de muitas maneiras. Mas de todas essas vezes, porque és tu a principal, não dói nada.

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A Alice, no dia em que te fui visitar (pela última vez?), disse-me: “não é justo, tu podes despedir-te da avó e eu não”. E tem razão. Ela também tem esse direito. Ela acredita que se te desse beijinhos te daria mais vida. Talvez seja por isso que eu não quis que ela fosse. Porque como tu, não quero mais esta vida tua. Isto que tu tens aqui, não é bom. Nem boa morte. Nem boa vida. E também não queria que ela visse. Que dói. Morrer dói Alice.

Abraço-te e demoro-me em ti até que estejas tu do outro lado da janela.

Inês Peceguina

A Narco-Infância

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Quando uma coisa acontece que é nova, diferente, nunca antes vista (pelo menos nas últimas décadas), há um tempo de estranheza e de interrogação. De perplexidade, suspeita. Muitas opiniões, todos temos algo a dizer sobre coisas que se chegam ao nosso dia-a-dia, às nossas casas e que a todos dizem mais ou menos respeito. Mesmo sem grande elaboração teórica, investigação, racionalidade ou sensibilidade. Mas estando ali, explicitamente, somos como que chamados a dizer qualquer coisa, a tomar uma posição, ou para dentro, ou para fora. Indiferentes é que não.

Depois, passado algum tempo, há uma fronteira, talvez matemática, estatística, a partir da qual um determinado número tem assim um efeito de extintor, supressão, de dormência.

A “coisa”, primeiro observada como potencialmente aberrante, perigosa, trata de activar o sistema nervoso simpático que, por simpatia, nos confere habilidades para enfrentar os desafios, sejam eles monstros terríveis (e imaginários) que se escondem debaixo das camas, ou derradeiras situações de vida ou de morte. O sistema simpático é assim um sistema de alerta, bio-psico-fisiológico, que entretanto, sofre do mesmo problema que outros sistemas, que é o dos hábitos. Se o sistema for muitas vezes activado, transforma-se numa espécie de alergia. Uma sequência de espirros que já não serve para nada senão para nos irritar. Depois desse limite as coisas que primeiro estiveram na base da ameaça, depois dessa quantidade grande de repetições, é muito comum que a ameaça o deixe de ser e que entre então numa nova fase. Bege, como a diz a minha irmã, quando quer dizer que uma coisa é apenas aborrecidamente “normal”.

Esta nova designação – normal – não é em si mesma boa ou má. Pode ser, e é muitas vezes, sinal de que os sistemas evoluem, de que tudo muda e que “coisas” que há uns tempos eram simplesmente estupidez, possessão demoníaca ou parte do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), aquele livrinho que é o tapete vermelho das psicopatologias, são agora do domínio da banalidade. Não aquecem, nem arrefecem. Pacíficas e consentidas pela maioria. Da masturbação à homossexualidade. Uma e outra antes sob o foco da perturbação mental. Outros há que recém chegaram a essa lista, nomeadamente o muito temido “monstro pré-menstrual”, sob a designação Premenstrual Dysphoric Disorder.

Agora, que também já não é agora, mas apenas na medida em que continuo a sentir que (ainda) vale a pena conversar sobre isso, há a “medicação infantil”.

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Assim dito, soa seguro, vem dos médicos, os senhores doutores, perdão, licenciados ou mestrados pós-bolonha (já que a maioria não possui, efectivamente, doutoramento). Então, medicação infantil, conduz-me pelo imaginário da aspirina com sabor a laranja, ou pela vacinação, esse outro monstro-lugar-tabu nos dias de hoje e sobre o qual não irei, hoje, dissertar.

A medicação infantil, que me activa bastante o sistema nervoso simpático, está cada vez mais próxima dessa linha invisível da normalidade, ou já lá chegou, estando maravilhosamente instalada nas rotinas, expectativas, agendas e necéssaires das mães e dos pais. Dela – da medicação infantil – depende a manutenção desta sociedade hiper-activa e das criaturas grandes, pequenas e médias que nela habitam. É assim, num contexto social, educativo, profissional, relacional, familiar e pessoal, que se define pela altíssima velocidade, a fibra, a constante solicitação de atenção de múltiplas fontes, a percepção contínua de ser curto o espaço e o tempo, de não caber nem metade do que precisaríamos para encher esse balão-de-fim-de-dia de missão cumprida. A missão, está num outro plano, para sempre virtual, e já não lhe chegamos quase nunca, ou nunca mais, quais galgos esbeltos numa corrida sem limites.

E então é assim. Objective-se para que não pareça que estou a falar sobre uma coisa misteriosa. Este cocktail explosivo. A Narco-Criança está bem de saúde e promete crescer doente, dependente e o mais possível amiga das farmacêuticas. Se possível, também da industria alimentar que a ajuda a fundamentar a “necessidade” da medicação. Bastantes hormonas, antibióticos, OGMs, e pequenos números que fazem parte da lista de ingredientes de coisas que se fazem passar por alimentos.

A Narco-Criança começa, quase sempre, que nisto dos fundamentalismos, é melhor não arriscar, por ser uma criança “normal”, vá. Aqui “normal” é quase sempre bom.

Por normal, entenda-se, quero dizer: activa, desperta, curiosa, activa, desperta, curiosa, sedenta de experimentar com o seu corpo, o mundo todo, tocar, cheirar, morder, esfregar, rasgar, construir e des-construir (às vezes destruir), activamente, desperta, curiosa, cheia de dúvidas, vontade, perguntas, incansável no seu desejo de proximidade, de afecto, de colo, de pele, de olhar atento e recíproco.

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Por normal, entenda-se: em movimento, dentro e fora, movimento centrípeto e centrifugo, a borbulhar de sinapses e neurónios e células da Glia que crescem a velocidades só vistas nos primeiros 5 anos.

 

 

A criança que não é “normal”, por oposição, tenderá a ser: inactiva, monótona, indiferente, sem dúvidas, letárgica, sossegada no seu corpo, que evita envolver-se, que não mexe, não toca, não experimenta com as mãos, a boca, o corpo, não rasga, não desconstrói, não faz perguntas, sossega-se e acalma-se a si própria, sem precisar do outro, ou nem sequer chega a precisar de o fazer, porque não vai longe a intensidade das suas emoções, da sua vivência. Não está sempre a pedir colo, conforto, dorme sozinha desde que nasce, ou perto disso, não chora quase nunca. O seu cérebro, por oposição, pauta-se pelo ritmo adagio, talvez possua longas dendrites, como algas, mas a densidade de neurónios e a velocidade das sinapses serão inevitavelmente menor e mais lenta, respectivamente.

Esta criança, que não é uma criança “normal”, parece no entanto uma criança que muito melhor se ajusta ao que se espera hoje em dia da maioria das crianças nos lugares ditos desenvolvidos. Os lugares para onde vão a maioria das crianças, durante toda a sua infância, não estão preparados para receber a criança “normal”. Arriscaria, muitas casas, muitos pais, muitos professores, muitos avós, muitos médicos, muitas crianças, até, não estão preparados para receber a criança “normal”.

E assim, neste mundo infantóspito, não há ruas para correr, riachos para saltar, árvores para subir e ficar, lugares abandonados, triplamente assombrados, enigmáticos e proibidos. Mas há sempre alguém (ou algo) de vigia, de guarda, para proteger, evidentemente, e que nessa sua tarefa, regula, controla, avisa, zela, substituindo-se muitas vezes à auto-regulação da criança (o seu sistema nervoso simpático fica numa espécie de férias permanentes). A juntar a esta extinção dos habitats da infância, acresce (ou falta) o tempo. O tempo da infância, que é rápida na sua execução, é contudo um tempo que requer muito tempo em liberdade, livre, onde a criança possa exercer (se) livremente, nas suas tarefas essenciais: relacionar-se, com os outros e com o mundo e brincar, por sua vez ferramenta no desenvolvimento das interacções e das relações. 

E está. Tudo pronto para o nascimento da Narco-Criança. Um, dois, três…

Senhores e senhoras, a criança “normal” não tem as devidas adaptações para o status quo, o estado da arte. Já há no mercado dispositivos que podem ser entregues à criança, ao bebé (há inclusive carrinhos de bebé já com o devido gadget para os dispositivos), e que conseguem, temporariamente, trazer ao de cima a criança pós-moderna.

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Mas, em todo o caso, pode não ser suficiente e há alguns senhores doutores que ficam rabugentos com estas pós-modernices, fazendo-lhes menos confusão, no entanto, porque a isso já estão habituados, dar inicio ao treino  da Narco-Criança.

Pode começar ainda em idade pré-escolar, aproveitando a boleia do fogo-de-artificio neurológico que ilumina os pequenos cérebros até aos cinco anos. Há já bastantes opções, não dão todas pelo nome de Ritalina, chamando menos a atenção dos pré-modernos que ainda esperam o resgate da criança “normal” e que costumam ser maldizentes destes avanços (normais?) da civilização.

Assim, a medicação, meio comprimidinho, para começar, como qualquer outra da família dos narcóticos ou outros “cóticos” (o rigor químico não é a questão mais relevantes neste momento), ajuda a criança a apaziguar e a entorpecer a sua criança “normal”. Assim, a criança + pais + professores + avós + senhores médicos + (…), já consegue suportar o cativeiro, sem subir as coisas todas à sua volta que, afinal, não são para subir.

Não é a primeira vez que ouço isto dos pais quando confrontados com essa situação (não lhe chamemos necessidade, porque não é uma necessidade da criança): “pois, mas a professora assim diz que não consegue, que ele não pode estar… são muitos meninos”. Apetece dar um calduço à professora? Apetece. Mas, no fundo, ela tem razão. Ou andam todos mais ou menos no mesmo comprimento de onda – ali entre o bege e o caqui (os indígos parece que são uma chatice das piores), ou então não há quem aguente os miúdos fechados nas salas, com sapatos nos pés e a ter fome e xixis muitas vezes e em horas incertas. Não é possível.

Foi por isso que o Zoo de Lisboa, como outros noutros países ditos desenvolvidos, que precisam de ter animais em cativeiro para explicar às crianças que estes (animais) já quase (ou só) existem em cativeiro porque lhes demos cabo das suas habitações, foi por isso, dizia, que fizeram o templo dos primatas superiores (os inferiores, é outras história, andam por ali a comer doritos). Porque os primatas precisam de balançar, subir, saltar, trepar, rodar, atirar, correr muito, e fazer muito barulho. E nós, mais i-pad ou menos i-pad, somos primatas.

Ainda ontem terminei a revisão de um artigo sobre o equipamento de recreio nos jardins infantis da Finlândia que avaliava a relação entre a actividade física (AF) das crianças (entre os 3 e os 5/6 anos), e o tipo de equipamento disponível. Que engraçado que, das várias possibilidades, o que mais contribuía para o aumento da AF, era o equipamento que permitia que a criança trepasse e balançasse. A existência de terrenos sinuoso, para subir tipo montanha-escalada e para descer em modo rebolar. A existência de materiais naturais. As monkey bars.

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Serra de Sintra

Mesmo interessante e, ao mesmo tempo, a sério?! É assim tão estranho? Andamos assim tão pós-modernos que não vemos nada à nossa volta? As crianças cada vez mais pesadas. No balancé. O balancé, by the way, estava associado a baixa AF.

Claro que a Narco-Criança, à medida que cresce na sua condição ébria, vai dispensado grandes agitações. Porque entorpecida e apaziguada, prefere a caixa de areia (também associada a baixa AF), e as subidas íngremes dão-lhe náuseas e vertigens. Com o tempo, meio-comprimido pode já não chegar.

Mesmo assim, uff, ao fim de semana pode andar por aí mais à solta. É verdade, há pais que até são aconselhados a não medicar durante as férias e fins de semanas. Embora, aposto, haja alguns que tenham sempre na carteira, e se desse para ser em dardo e usar as Nerfs nas Narco-Crianças, não hesitariam. Sim, porque depois já não estão mesmo nada habituados à criança “normal”, que inventa 156.89 desculpas para ficar no parque só mais 5 minutos. E em cima do escorrega, só se lhe puxasse pelas meias para a obrigar a descer, o que não é lá muito elegante de se fazer, para os pais pós-modernos.

Mas é assim que funciona. E como (felizmente?, Assim de repente, já nem sei), ainda sobram muitas crianças “normais”, que isto da electrónica acontece muuuuuito mais rapidamente que a genética, a tendência é para que venham a ser cada vez mais as Narco-Crianças. Porque isto não está para molezinhos. Ou melhor, de certa forma, sim, está. O que queria dizer, é que, no global, não se prevê que os requisitos do mundo pós-moderno venham a incluir as necessidades reais da criança (embora localmente, e sempre em movimentos minoritários ainda pouco coesos, se note às vezes uma tendência oposta, mas nada comparável).

Tenho curiosidade para saber o que será destas Narco-Crianças quando se tornam Narco-Pré-Púberes e, mais tarde, Narco-Adolescentes. Ao menos já se iniciaram nas substâncias, de forma controlada e prescrita. Isso muda tudo, certo? Isso faz com que a criança, mais tarde adolescente e adulto, compreenda e distinga quando é que é apropriado recorrer a químicos que alteram a química do nosso cérebro. Qual é a fronteira? O limite? Qual é a dose máxima? E como é que lidam com a privação? O desmame?

A criança, que muitas vezes resiste e recusa a medicação, porque sabe que a sua criança ficará anestesiada e também que só assim é que é suportada pela sociedade e por aqueles que dela cuidam, saberá mais tarde decidir quando é que (e se) uma tristeza é excessiva ou normal, um medo é só medo ou fobia, uma zanga é só zanga, ou uma ira raivosa capaz de destruir tudo sua volta? E que há outras formas de lidar com isso tudo.

Normalizar, quer dizer banalizar, trivializar, que é também um tipo de violência. E é ainda uma violência maior porque é exercida sobre uma pessoa que não escolheu para si estar num mundo infantóspito, onde para sobreviver só lhe resta o silêncio, a estuporização da sua essência infantil. Como aqueles leões do Zoo de Lisboa (esses não tiveram ainda a sorte dos primatas superiores), que andam de um lado para o outro, numa elipse infinita. Não há fuga possível.

“Rendes-te ou morres?”, perguntavam duas crianças (de 4 e 5 anos) a uma outra (4 anos). Três meninas, que obviamente não estão medicadas, caso contrário não andavam neste tipo de brincadeiras. “Render é morrer”, responde a terceira. É isso mesmo. Da sabedoria dos seus 4 anos, já compreende que abdicar das coisas que são a nossa natureza, o nosso propósito, a nossa existência, é morrer.

E estas crianças todas, que são cada vez mais e que por isso cada vez menos se fala delas, são crianças semi-vivias. E nós que as observamos na sua agitação aprisionada no corpo, conseguimos ainda assim vê-las nos seus olhos, nos seus olhares mais ou menos perdidos, mais ou menos anestesiados. Quantas ficarão para sempre condicionadas por estas estratégias? Quantas se sentem culpadas e responsáveis e problemáticas? Quantas serão um dia capazes de funcionar de forma autónoma e sem aditivos? E subir a uma árvore sem estar preocupadas que haja um plaquinha com instruções a dizer que é só para crianças até aos 7 anos e elas, ainda ontem, fizeram 8.

Será que ainda podem brincar? E se alguém vê? Um dia ao sair de uma aula de ballet, numa classe em que a pessoa mais velha, antes de mim, tem menos 12 anos e grande parte poderiam efectivamente ser minhas filhas, uma menina da idade da minha filha do meio disse-me baixinho e num tom de voz punitivo e um pouco zangado: “tu és uma mãe, e as mães não dançam ballet”. Ainda hoje, quando nos cruzamos, dois anos depois, olha para mim de olhos semi-cerrados, como se tivesse descoberto um qualquer segredo terrível a meu respeito.

Acontece que os miúdos, confiam muito nos adultos de quem gostam muito. E nesse voto de confiança cego, entregam uma dimensão tão gigante da sua criança “normal”, que depois um dia, quando crescerem, vai existir de certeza um buraco, muito fundo, muito escuro, e tudo à volta, muitas vezes, mais do que seria “normal”, é uma grande confusão, porque afinal, havia tanto nelas e delas, que ficou, para sempre, por existir.

Isto, para mim, é uma espécie de infanticídio. Da era pós-moderna, mas ainda assim, infanticídio. Isto, para mim, está longe de ser NORMAL.

Inês Peceguina

Virtudes da Incerteza (IV, e última)

É inútil estar a desenvolver programas de “resolução de problemas” ou de “aprender a aprender” que parecem bem se 95% dos estudantes continuam a ser passivos e sem sentido critico relativamente à aprendizagem. 

 

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A grande questão é: como é que pomos estas virtudes em prática?

O que é necessário para que as escolas se tornem incubadoras de virtudes da aprendizagem, de forma a que os seus estudantes, qualquer que seja o ano, terminem cada ano com hábitos enraizados de curiosidade, coragem e os restantes? Como é que se transformam as escolas numa espécie de “ginásios de virtudes”, onde os estudantes praticam o seu fitness mental, em vez de conversarem apenas sobre ele? Para responder a esta questão precisamos, primeiro, de nos libertar do que não funciona.

Primeiro, os sermões morais (muito apreciados pelos directores e frequentemente rotina nos primeiros dias de recepção aos alunos). Falar apenas sobre “caracter”, não obstante a importância do vocabulário, não cultiva as tão desejadas características. Ser capaz de discutir, defender e até concordar com a importância de uma dada virtude não é garantia de que esta venha a manifestar-se na prática. Por exemplo, quando a um grupo de jovens foram dados testes sobre as suas competências de raciocínio moral, os seus resultados não se correlacionaram com o seu nível real de comportamento anti-social. Adolescentes problemáticos podem perfeitamente distiguir o que está certo do que está errado; apenas não escolhem a opção “certa” no calor do momento. O conhecimento e as crenças são constantemente ultrapassados pelo hábito e pelo impulso.

Quer nos hábitos morais como na aprendizagem em si mesma. Embora ser capaz de conversar sobre a natureza do “bem-pensar” seja útil, meramente fazê-lo não faz com que nos tornemos melhores pensadores. Já assisti a aulas em que, por exemplo, os miúdos papagueiam a teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner sem nenhuma evidência de que algum deles se tenha tornado sequer um bocadinho mais “inteligente-múltiplo”. Somos todos, como um dos meus alunos dizia de forma bastante eloquente “grandes conhecedores de coisas nas quais somos uma caca”.

Outra coisa que não funciona, quando se quer cultivar estes hábitos de aprendizagem, são os workshops ou actividades pontuais, entendidos como “mais uma tarefa como as outras”. Investigação sobre programas para o desenvolvimento de competências de pensamento/raciocínio, por exemplo, indicam que embora até sejam apreciados e desfrutados pelos estudantes enquanto duram, os seus benefícios não só não persistem como também não se generalizam a outras áreas de aprendizagem das suas vidas que dentro, quer fora da escola.

É inútil estar a desenvolver programas de “resolução de problemas” ou de “aprender a aprender” que parecem bem se 95% dos estudantes continuam a ser passivos e sem sentido critico relativamente à aprendizagem. 

A ineficácia relativa das abordagens de treino de competências é exemplificada pelos resultados do Programa Resiliência, desenvolvido no Reino Unido. Baseado num programa muito mais publicitado desenvolvido pela Universidade de Pensilvânia, o pacote, lançado em 2007, compreendia um conjunto de aulas e workshops desenvolvidos para ajudar jovens adolescente a ter melhores competências para lidar com os desafios da escola e da sua vida em geral. A avaliação final do programa, em 2011 revelou que os efeitos benéficos dos workshops geralmente duravam apenas o tempo de duração do programa, desaparecendo um ano depois – excepto no caso dos jovens mais vulneráveis e de menor desempenho académico. O fraco impacto do programa foi desvalorizado pelos investigadores e atribuído à utilização excessiva de estratégias didáticas nas intervenções.

A questão, é que as virtudes não são apenas competências, são também hábitos ou disposições. Ter a virtude da curiosidade não significa apenas que se tem a capacidade para fazer boas perguntas quando alguém nos desafia. Significa ter também uma moldura mental que coloca questões. O objectivo da educação do carácter não pode ser apenas o treino de competências. Uma competência é uma coisa que pode se feita; não necessariamente algo para que se esteja constitucionalmente disposto a fazer. Uma escola de virtudes tem de ser mais do que uma instituição de treino; tem de ser uma incubadora que desenvolve e fortalece as qualidades mentais desejáveis através de tudo aquilo que faz.

 

Assim, como é que os professores (ou outros adultos, acrescento eu) podem aguçar a curiosidade dos miúdos? Perguntar-lhes o que os intriga pode ser um bom ponto de partida. Cumprimentá-los numa segunda feira de manha dizendo “quem é que encontrou uma questão interessante este fim de semana?” Ter um “muro de coisas fantásticas” cheia de post-its capazes de atrair as questões dos miúdos. Desafiar a que pensem como cientistas e gerem novas hipóteses, novas questões, com base nos resultados de experiências desenvolvidas por si.

E a coragem e a determinação? Encorajem os estudantes a considerar as dificuldades como desafios em vez de ameaças. Não os deixem pensar que descobrir que uma coisa é difícil é um sinal de estupidez. (Darwin e Einstein eram os dois aprendizes notavelmente lentos. Contudo, a resolução de coisas genuinamente desafiante, pode beneficiar de abordagens lentas!) Não pensem que são generoso por livrarem os miúdos das dificuldades e frustração: estão apenas a reforçar a ideia de que ficar às vezes preso nas dificuldades deve ser entendido como algo a temer, em vez de algo excitante.

Como é que desenvolvemos os hábitos e capacidades de um explorador? Se dermos aos miúdos mais projectos baseados em recursos, eles têm de aprender como levar a cabo a sua própria investigação e encontrar os seus próprios recursos. Podemos encorajá-los a questionar o conhecimento que encontram – quer nos livros, quer nos anúncios de televisão – e gradualmente construir o hábito do respeito e cepticismo inteligente sobre o que lêem na Wikipedia ou no jornal.

Experimentação? Dêem aos miúdos a possibilidade para pensar em como avaliar e melhorar o seu trabalho, quer de modo individual quer colaborativamente. Conversem com eles sobre os julgamentos, os trabalhos, conflitos e incertezas que subjazem às descobertas de Galileu e de Newton, do trabalho duro e dos muitos rascunhos que foram parar ao caixote do lixo até ser claro que  “Todo o mundo é um palco” (a primeira frase de um monólogo de Shakespeare). Conversem sobre o guião de Fawlty Towers ou do The Office. Os miúdos que têm acesso a este enquadramento histórico, por exemplo, no domínio das ciências, retêm melhor a informação e usam-na de forma eficaz para resolver problemas.

A imaginação também pode ser aprendida. As pessoas criativas são as que aprenderam a habilidade para variar entre pensamento linear e intencional e modos mentais mais sonhadores e imaginativos. As escolas têm funcionado com base na psicologia negativa, presumindo que a imaginação e a visualização são formas de pensamento infantis ou imaturas do conhecimento, a ser rapidamente substituídas por aquelas que são deliberadas e articuladas. As crianças deviam ter a oportunidade como uma criança me disse um deste dias de “deixar os nosso cérebros sossegar um pouco, para que possam outra vez borbulhar com novas ideias”.

Naturalmente temos de ajudar os estudantes a desenvolver a disciplina de serem capazes de planear, pensar cuidadosamente, antecipar as consequências, e aplicar as competências exigentes do fazer, um ensaio literário, uma casinha de madeira para pássaros, uma pintura. Ron Berger, um professor americano, no seu livro maravilhoso Uma Ética da Excelência, mostrou como é que até miúdos com baixo desempenho ou desmoralizados podem ser ajudados, através do ethos da escola, a desenvolver uma atitude de artesão relativamente aos seus trabalhos, e orgulho por terem produzido o melhor que conseguiram.

E a sociabilidade, pode ensinar-se? Uma professora que eu conheço deixa os seus alunos decidirem se querem resolver as tarefas sozinhos, em pequeno grupo com colegas, ou com ela (a professora). Depois, registam no seu diário de bordo da aprendizagem se consideram ter escolhido a melhor opção, ou se não, e porquê. Outra professora do ensino básico tem uma turma que muda regularmente o tamanho e os elementos dos grupos porque quando crescerem vão ter de se relacionar com todo o tipo de pessoas, não apenas com amigos e por isso querem aprender a fazê-lo já.

Finalmente, como é que se ensina mindfulness e reflexão? Por exemplo mantendo um diário que permita aos alunos ruminar e, como dizia outro estudante, “beber o sumo das nossas próprias experiências, de modo a que aprendamos através das nossas escolhas e erros e assim progredimos mais rapidamente”. Através de pequenos exercícios e lembretes simpáticos, um professor pode levar os seus alunos a desenvolver o hábito de ficar à escuta, pensar sobre o que querem fazer: competências de vida úteis para a narrativa de qualquer pessoa.

A beleza disto, é que todos os professores (todos os adultos) podem fazer pequenos ajustes aos seus modos de agir típicos. Não é preciso enxotar Shakespeare para ter tempo para um novo e pouco claro tema chamado “aprender a aprender”. Aprender a aprender, nestas salas, torna-se uma espécie de substracto para conteúdos com padrões mais explícitos. Não obstante aquilo que pensam os mais tradicionalistas, não existe uma moeda de troca entre as virtudes do conteúdo e da aprendizagem: as duas dependem uma da outra.

A questão é esta: quando os estudantes são ajudamos a ser mais confiantes e articulados sobre o processo da aprendizagem em si mesmo, saem-se melhor, não pior, nas avaliações. Os jovens que têm sido ajudados a saber como pensar e a ser perseverantes levam estas forças consigo para os momentos de avaliação, bem como para a arena, ou para o concerto, para a vida. Com uma centena de pequenos ajustes ao contexto das escolas e das salas de aula, podemos produzir jovens que são mais confiantes, capazes e entusiásticos em envolver-se de forma inteligente com coisas difíceis. Quando articularmos as virtudes da incerteza de forma clara e concreta, descobrimos que conseguimos ensinar de forma a preparar os miúdos quer para a vida dos testes, quer para os testes da vida.  

*Autor do livro What’s the Point of School? e Building Learning Power. É actualmente co-director do “Centro para a Aprendizagem no Mundo Real” (Centre for Real-World Learning) da Universidade de Winchester.

(tradução de Inês Peceguina do original Virtues of Uncertainty retrieved form https://aeon.co/essays/a-life-of-tests-is-no-preparation-for-the-tests-of-life)